Tchutchuquito (Terror cósmico)

O céu e o mar pareciam em guerra. Uma tempestade açoitava as águas com saraivadas de gotas furiosas e bombardeios elétricos, cada granada um relâmpago transformando noite em dia e seus trovões rasgando o ar feito uma explosão. Ondas revoltadas se erguiam em resposta, subindo em direção às nuvens como se quisessem atingi-las, mas sem efeito. O céu ganhava a batalha. 

O breu seria absoluto, não fossem pelos raios e o biplano em chamas lentamente afundando sob as ondas. Os arredores da cauda erguida formavam um oásis vermelho e laranja, uma ilha de gasolina em chamas em meio àquele mar de trevas.

Outra ilha — dessa vez de verdade —, há poucos metros dali, fora a única testemunha do acidente; a única (além das passageiras) que assistira ao raio atingir o motor. Sua estrutura rochosa e pontiaguda erguia-se firmemente neutra nesta guerra de ondas, chuva e raios feito um chapéu de bruxa. E assim poderia ser seu nome, caso constasse em algum mapa.

A água salgada e doce escorrendo em sua superfície refletia o oscilar do fogo quando algo surgiu em uma de suas praias basálticas sujas de areia. Uma mulher de longos cabelos prateados e franja reta escondendo as sobrancelhas emergiu das ondas, caminhando em suas calças, botas e jaqueta de piloto. Em seus braços, trazia uma outra mulher, desacordada, as madeixas mais curtas, loiras e onduladas escorrendo água salgada pelo braço da companheira e em filetes até o chão.

Os passos de “Dona Franja” eram apressados e estranhamente firmes naquele terreno acidentado e escorregadio. Achou uma região de areia mais macia e depositou a companheira no chão com cuidado. Em seguida, puxou do bolso uma lanterna à prova d’água e a acendeu.

— Amor? — seu tom saiu apressado, a luz trazendo cores à vida, mas a moça não esboçou reação. — Amor? — A mão livre deu tapinhas na bochecha. O foco da lanterna, em cheio no rosto branquelo, revelava um corte na testa. — Glória, acorda! — Dona Franja pareceu angustiada ao ver o sangue aguado pela incessante chuva escorrer sobre a pele. Seus tapas se intensific… 

Aaarf! — Glória abriu os olhos puxando ar e tossindo violentamente em seguida. Virou-se lado e vomitou água salgada na areia, sob tapinhas nas costas.

— Você está bem? — perguntou Dona Franja aproximando-se aliviada, porém um tanto incerta. Sua laterna vasculhava a companheira em busca de mais ferimentos.

— M-minha cabeça dói… — Glória gemeu, os olhos apertados como se estivesse zonza.

— Calma, deixa eu ver. — O rosto tenso se aproximou e, sem aviso, um polegar deslizou suavemente pela ferida enquanto a boca murmurava alguma coisa. Se pelo efeito da cabeçada contra o painel, se pela tontura causada pelo quase afogamento, impressão de Glória ou não, a voz de sua companheira saiu estranha. Como um eco distante reverberando em sua mente. As íris âmbar pareceram cintilar, mas isso poderia ser apenas reflexo da ilha de fogo em seus olhos.

— O que… o que você está sussurrando? — Glória perguntou.

— Nada. Só estava pensando em voz alta. Como está a dor?

— M-melhorou… — respondeu Glória com certa surpresa. Passou a mão pela testa e aquela dor profunda, dentro dos ossos, havia desaparecido por completo, deixando apenas a ferida na pele.

Dona Franja Prateada abriu um sorriso aliviado e disse:

— Que bom. Vem, vamos sair daqui. Tem uma caverna logo ali, ó — e sua lanterna iluminou a lateral do chapéu da bruxa através da cortina de chuva, em cheio em uma fenda escura como um rasgo na rocha. Uma fenda que parecia beber a luz da lanterna. — Ali deve estar mais seco do que aqui fora. 

Glória apenas assentiu e, minutos depois, o forte ruído da tempestade foi substituído pelo silêncio da caverna. As duas caminhavam por um chão rugoso, negro como a noite, a única luz sendo a da lanterna. Como previsto, não havia ali uma gota sequer, exceto a que as duas deixavam em seu caminho, mas também não parecia ser um bom abrigo. Estavam em um túnel apertado, o chão irregular demais até para se sentarem. Seguiam em frente, na esperança de encontrarem uma galeria, quando uma luminosidade verde revelou uma curva adiante.

— O que é aquilo? — Glória parou, assustada.

— Pois é… Não sei. — Dona Franjas enrugou o cenho em estranhamento. — Boa pergunta. Vamos ver o que é.

Glória não pareceu muito disposta, mas aquele túnel também não estava convidativo o suficiente. Seguiu logo atrás da companheira e, menos de dez passos depois, encontraram outra fenda, dessa vez mais estreita. Passaram meio desajeitadamente, Dona Franja ajudando Glória, até que se viram no topo de uma escadaria esculpida no basalto nu. Seus degraus desciam até uma piscina circular, envolta por uma borda em forma de anel, também esculpida na rocha.

Era das águas que vinha a luz verde. A piscina brilhava seu fundo como se feita de um material fosforescente, sua luminosidade tão forte que Dona Franja apagou a laterna. O teto e as paredes, enrugadas e tortas, refletiam os focos de luz ondulante em uma iluminação orgânica e viva.

O casal então baixou sua atenção para a borda da piscina e notou que cada fatia exibia um símbolo. Eram simples, com no máximo cinco ou seis riscos, mas estranhamente impossíveis de reproduzir, uma vez que desvaneciam da memória mal os olhos se desviavam. A fatia logo ao pé da escada era mais larga e avançava sobre as águas, sua ponta mais estreita do que a base.

— Q-que… que lugar é esse?! — Glória sentiu frio nos ossos e seu corpo estremeceu. — V-vamos, embora, amor. Por favor. Estou com um mau pressentimento.

— O quê? Não! — Dona Franja, que havia descido um par de degraus, voltou-se para trás, mirando sua companheira de pé no topo da escadaria. — Não precisa se preocupar. — A alcançou, pôs uma mão carinhosa em seu rosto e a mirou fundo nos olhos. — Confia em mim. Vai ficar tudo bem. — Glória franziu de leve o cenho ao notar o mesmo efeito de antes, a voz ecoando e o leve cintilar naqueles olhos âmbar. Estranhamente, seu medo arrefeceu e ela assentiu timidamente. 

— Tá… Mas eu vou ficar aqui em cima, pode ser? Eu não quero descer.

— Sim, claro! Fica aí! — Dona Franja sorriu. — Deixa que eu checo lá embaixo.

Glória assentiu e sua companheira desceu as escadas até alcançar a larga fatia e parar na borda, diante da água. O verde radioativo iluminava seu rosto de baixo para cima.

— Olá? — chamou ela, sua voz reverberando pela rocha. — Tem alguém aí?

Glória franziu o rosto em estranhamento. Quem sua companheira esperava que respondesse? Não havia outra entrada e elas estavam sozinhas!

Foi quando as águas começaram a borbulhar e se agitar, como se a tempestade lá fora as estivessem açoitando à distância. Dona Franja recuou alguns passos, até alcançar os primeiros degraus, e dali assistiu ao seu chamado ser atendido. Um emaranhado de tentáculos emergiu da água e, assim como os símbolos no chão, suas formas eram… estranhas. Havia, mas não havia ventosas… Eram pretos e úmidos, mas pareciam brancos e secos… Estavam aqui e ali, mas não estavam em lugar nenhum… A criatura emergiu totalmente da água, sem agitá-la, como uma assombração atravessando uma parede. Parou em pleno ar, revelando uma silhueta de asterisco. E quando suas protuberâncias tentaram alcançar a margem, ondulações verdes a impediram, como se presa dentro de um cilindro de vidro.

Liberte-me…

Liberte-me…

Liberte-me…

Liberte-me…

Não era uma voz, mas um desejo. Um desejo vindo da criatura, como um bater de coração. Esse desejo invadiu a mente de Glória junto com a imagem paradoxal da criatura e ambos penetraram fundo, ecoaram fundo em sua mente e cintilaram. Imagens além do que era possível descrever invadiram sua mente; pesadelos em suas formas mais puras, sem contornos ou formas, apenas terror absoluto, todas chamando a moça.

Liberte-me…

Liberte-me…

Liberte-me…

LIBERTE-ME…

O desespero escalou o pescoço de Glória feito as águas de uma enchente. Buscou a boca para vazar e sair em forma de grito quando…

EI, EI, EI! — Dona Franja bateu palmas. — Quer parar de zoar a cabeça da minha namorada? Que porra é essa, Tchutchuquito?! Tá maluco, é?!

Glória piscou ao sair do transe e arregalou os olhos ver que descera até o meio da escadaria. 

Putz, foi mal! — disse o asterisco. — Foi sem querer! Eu… Péra lá! Amon? É você?!

— Sim, sou eu. Pô, cara, toma cuidado! 

Glória piscou. O que diabos estava acontecendo?! Seria aquilo um sonho? Era impressão sua ou sua namorada estava dando bronca naquela coisa? E a coisa estava… se desculpando?!

Vou tomar, foi mal. Mas e o que você está fazendo aqui, criatura?

— Nosso avião caiu aqui perto. Levamos um raio no motor. E tu? Tá preso aqui por quê?

Ah, cara… o de sempre… Eu tava passeando de boas, na paz…

— Ah… — Os ombros de Amon afrouxaram em súbita compreensão. — Putz, deixa eu adivinhar, o povo começou a ter pesadelo e o cacete, enlouqueceram e te lacraram, não foi?

É… Tô aqui a uns… o quê?, cinco mil anos? Por aí, acho.

— Ah, pô, então foi só um final de semana. Achei que fosse mais tempo.

Sim, mas é chato do mesmo jeito.

— É… imagino…

Ei! — A voz de Glória ecoou na caverna e os dois olharam para ela. — O-o-o que diabos está acontecendo aqui?! V-vocês… vocês se conhecem?! — Ela não sabia se devia sentir medo ou indignação. Amon e Tchutchuquito se entreolharam e Amon sorriu mais amarelo que um canário.

— Ahn… então, amor — disse ela claramente constrangida —, esse é o meu amigo… ahn… Cara, fala aí teu nome. Não consigo pronunciar.

Txlock Uithquipto.

— Como é? — Glória franziu o cenho.

— É, eu também não consigo. Chama de Tchuquito que ele atende.

Mas Glória não o chamou de Tchuquito. Na verdade, não disse nada por uns bons segundos, seus olhos dardejando entre o asterisco impossível e sua namorada. Parou na namorada.

Como você conhece ele?

— Somos amigos de infância.

Amigos de infância?! — sua voz aguda reverberou na caverna e Amon se encolheu. — Desde quando alguém tem um amigo de infância assim? — Sua mão apontou para a criatura.

Ela não sabe, Amon?

— N-não… — Amon apertou os lábios.

— Não sei o quê?! E que história é essa de “Amon”?! Seu nome não é Ramona?!

— Eeeentão… — Amon coçou a nuca e mirou tudo menos a namorada. — Eu não… eu não quis te contar para não destruir sua sanidade, mas… ahn… eu e o Tchuquito aqui somos… tipo… seres de mesma natureza?

Outro silêncio se abateu antes de Glória erguer a voz:

— Que papo é esse?! Como assim vocês são iguais?! Eu nunca te vi com tentáculos!

— É que a minha forma original é outra. Eu sou… ahn… eu sou uma esfera.

— Uma esfera — o tom saiu seco. Glória cruzou os braços.

— É, uma esfera. Tipo… uma bola.

— Uma bola de futebol, por acaso? — Uma sobrancelha se ergueu. — Ou de bilhar?

— N-não, eu… Ah, qualé, amor, se eu tivesse te contado antes, você teria achado que eu sou louca! — Amon abriu os braços, chateada. — E se eu tivesse revelado minha verdadeira forma, você teria enlouquecido! Quem sabe até morrido! Vai por mim, mentir para você salvou a sua vida.

É, moça, a Amon aqui é sinistra! Ela mata a galera só vislumbrarem um pedacinho dela! Já vi gente sangrar pelas orelhas e pelos olhos! E quem não morre vira um vegetal! Fica babando e balbuciando trololó. É feio, acredita em mim! Ela não ter te contado ou mostrado quem realmente é salvou sua vida.

O rosto de Amon pesou, cheio de culpa.

— Eu… nós, melhor dizendo — e apontou para si e para o amigo —, não podemos simplesmente andar por aí. A gente tem que tomar mó cuidado para não tocar na mente de alguém ou aparecer de corpo presente. Só que como somos… ahn… cósmicos, é… é difícil evitar.

Houve mais um longo silêncio cético até que…

— E você se apaixonou… por mim? — Aquilo não fazia sentido algum.

— …É… — Amon-Ra sorriu timidamente.

— Um bola de futebol destruidora de mentes se apaixonou por mim? É isso?

— É uma forma simplista de colocar, mas… é meio que por aí mesmo. — E diante da expressão desconfiada no rosto da namorada, adicionou: — Tá, ó, se quiser uma prova, sabe a dor na sua cabeça? Então, eu que te curei. E quando você estava aterrorizada, eu te acalmei.

Os olhos de Glória se arregalaram e seus braços se descruzaram, pendendo ao longo do corpo, quando o eco e cintilar voltaram à sua memória. Sua espinha gelou.

— Então v-você… você é… — ela recuou alguns degraus, o terror estampado em seu rosto.

— Ah, qualé, amor, não faz assim! — Amon aproximou-se alguns degraus. — Eu sempre cuidei de você! Nunca te fiz mal, nunca fiz nada para te ferir ou te magoar! Eu te amo à beça!

Aquelas palavras frearam Glória e os anos juntas voltaram à sua mente. De fato, não havia nada incriminatório nas ações da namorada. Muitíssimo pelo contrário. Todas as risadas na sorveteria perto de casa, as discussões sobre a disposição dos móveis, as aventuras juntas, os momentos na cama… Quando Glória percebeu, Amon estava diante dela, segurando suas mãos.

— Eu te amo, Glória, e você sabe disso. Eu vou tirar a gente daqui, tá bem? Não se preocupe. Hein, Tchuquito, depois que eu te soltar, você consegue transportar a gente?

Ahn… Então, Amon, eu… eu tenho uma notícia meio péssima para te dar. — O casal sentiu o estômago cair (Amon apenas metaforicamente). — Para eu me libertar é preciso… é preciso… ahn… é preciso um sacrifício humano.

O quê?! — As duas arregalaram os olhos.

— Como assim?! — exclamou Amon.

Não posso fazer nada, acredite em mim, eu tentei de tudo! Eu… eu sinto muito…

— Não, qualé, Tchuquito! Não fala isso! — As íris de Amon flutuavam no branco dos olhos.

— Você não pode usar seu poderes para nos tirar daqui, amor? — perguntou Glória.

— P-poder eu posso, e é até fácil, mas… — Amon a encarou, o terror estampado no rosto. — Mas você iria morrer! Sua mente não aguentaria.

— E não tem como me reviver? Você não é uma criatura cósmica? Cadê seus poderes?

— Eu-eu-eu posso te reviver, sim, mas eu não sou onipotente… — Seu tom saiu quase como um pedido de perdão, sua voz tremendo. — Eu não posso reviver… tudo.

— Como assim? — Glória sentiu as entranhas gelarem. — O que em mim não voltaria à vida?

Amon se calou. Seus olhos marejaram e uma gota escorreu.

— A-algo seria tirado de você — disse com a voz úmida.

— O que seria tirado de mim? — Glória sentiu seu estômago cair quando sua namorada se aproximou, o rosto molhado de lágrimas. — O que seria tirado de mim?! — Ela ergueu a voz quando Amon, em silêncio, a abraçou com força. Seus lábios tremiam e os olhos vertiam mais água do que a tempestade. — Amor, o que é? Me responde! O que eu vai ser tirado de mim?! — Mas Amon apenas chorava. Quando finalmente recuperou o controle da voz, sussurrou:

Lembre-se… lembre-se apenas que eu te amo muito.

***

Glória abriu os olhos subitamente, puxou ar e se debateu.

Calma! Calma! Eu estou aqui, Glória, calma! Você está segura! — disse uma voz jogando luz em seus olhos. Seu mundo era um foco cegante e branco escondendo tudo ao redor.

— O-onde eu estou? — sua voz saiu ofegante, assustada. — Quem é Glória?

— Você. Você se chama Glória — disse a voz e, quando a luz baixou, uma mulher de jaleco branco, cabelos prateados e franja reta cobrindo as sobrancelhas a encarou com uma laterna nas mãos. Estava ajoelhada, próxima o suficiente para seu rosto cobrir todo seu campo visual. — Eu estou aqui, calma.

— Aqui aonde? — Glória arfava, seu rosto em choque. Olhou ao redor, para as paredes acolchoadas, seus olhos vidrados dardejando pela pequena sala. — Por que eu não consigo me mexer? — Baixou os olhos e viu que estava em uma camisa de força.

A mulher de jaleco pôs gentilmente uma mão em seu rosto e puxou sua atenção para si. Glória arregalou os olhos ao ver que ela vertia lágrimas silenciosas.

— Eu vou te soltar, não se preocupe — disse com a voz trêmula. — Você teve outra crise e tivemos que sedá-la para que não se machucasse. Eu sou a doutora Amon-Rá, eu sou a médica psiquiatra responsável por você. Toda vez que ocorre uma crise, sua memória se apaga e temos que te explicar tudo de novo. Mas não se preocupe, eu estou aqui agora, está bem? — Sua mão acariciou com carinho as bochechas recém-arranhadas, cheias de cicatrizes autoinfligidas.

— P-por que você está chorando? — Glória perguntou, seu rosto confuso, o tom saindo apenado. Estava calma pela primeira vez desde que acordou. 

Diante da pergunta, a doutora Amon-Rá perdeu a voz. Uma onda de lágrimas engoliu suas palavras e foi preciso um longo instante até que conseguisse se recompôr. Fungou, limpou os olhos e então disse com a voz trêmula:

— N-não precisa se preocupar. Confia em mim — as íris cintilaram. — Vai ficar tudo bem.

Comentários