Ramona, a protagonista desta história, não é uma personagem comum. Ela é uma espécie de "entidade", encarnando diversos papéis diferentes em diferentes histórias, apenas para fins de humor. Como ela ela possui um distanciamento da seriedade padrão de alguns tipos de narrativa, não levando as coisas muito a sério, a graça é jogá-la em cenários nos quais essa característica cause contraste com a situação.
Ela foi usada no conto "A Bruxa e a Escolhida" (ainda a ser trazida para o blog), e agora aparece nessa história inédita. Então não estranhem se virem ela em outros papéis aleatórios por aí.
Tá, agora chega de papo e vamos ao conto.
(Não deixe de comentar! Diga o que você achou da história! \OvO/)
A claraboia da antiga fábrica estourou em uma chuva de vidro e destroços. Uma figura de preto e longos cabelos prateados fez um giro acrobático e pousou no piso de concreto, os cacos quicando ao seu redor.
Apesar da sua pose de combate, o único a encará-la de volta foi o breu.
Uma lâmpada solitária acima de sua cabeça a iluminava dentro de seu cone de luz, mergulhando o que havia além no mais profundo negrume e marcando sombras duras em seu rosto artificial.
Não fosse pelas linhas de junção da pele descendo dos olhos até a mandíbula, e as íris com diafragmas óticos, ela seria indistinguível de um ser humano. Usava um vestido preto sem manga, de saia rodada indo até o meio das coxas, e de corpete justo. As pernas estavam cobertas por calças leggings de mesmo tecido tático, que se fundiam em um par de botas.
A androide olhou em volta.
Os receptores de luz em seus olhos mudaram para outras faixas de frequência e miraram seus arredores por baixo de sua franja reta. Não havia dado uma volta ao redor de si quando…
TCHAF!
…todas as luzes se acenderam, revelando um amplo espaço vazio com paredes forradas por enormes caixas de madeira.
A androide ergueu os braços à frente do rosto, apertou os olhos e recuou um passo.
— Muahahahaha! — uma risada ecoou pelas paredes. — Eu estava esperando por você... Ramona!
— Doutora Braga... — O rosto de pele sintética se franziu.
No topo de uma passarela, surgiu uma mulher de longos e ondulados cabelos loiros. Caminhou até parar no centro, diante da androide. A mulher usava óculos, jaleco branco, uma saia preta justa, meia-calça e sapatos pretos de salto baixo.
— Finalmente nos reencontramos cara a cara! Eu sabia que você viria aqui tentar me impedir, por isso preparei meu exército! — E estalou os dedos.
As caixas mais próximas estouraram, revelando robôs com quase cinco metros de altura. Fragmentos de madeira ainda rolavam pelo piso quando as máquinas entraram em posição de combate, todos com olhos vermelhos fixos na oponente.
Ramona ergueu sua guarda, pronta para lutar, porém seu rosto virou uma interrogação:
— Ahn... Hein, doutora, posso te fazer uma pergunta?
A expressão da Doutora Braga espelhou a da androide:
— O que você quer saber?
— Como você constrói esses robôs? Você tem uma fábrica?
— Não, eu construo um por um, por quê?
— Sério?! Tipo... sozinha?
Doutora Braga meneou a cabeça.
— Sozinha, soziiinha, assim, não dá porque eu sou uma só. Mas com meus robôs, fica relativamente fácil.
— Mesmo assim! Isso... é impressionante! — Ramona tinha as mãos na cintura e as sobrancelhas erguidas. — Onde você compra o material para fazer tudo isso?
— Shopee.
— Jura? Rapaz! Não sabia que vendiam material tão bom assim por lá!
— Tem que garimpar um pouco, mas você acha. É tudo chinês. O ruim é que quando chega aqui, fica preso em Curitiba para sempre... Tive que esperar quase três meses para conseguir o material desses aí.
— É… bem que eu notei que você deu uma sumida.
— Pois é.
— Mas, pô, parabéns! Ficou um trabalho excelente. Aliás, todos os seus robôs são excelentes. Eu achava que você construía eles numa fábrica! Se eu soubesse que eram artesanais, feitos um a um, não teria destruído todos. Eu adoro seu design. Você tem muito bom gosto.
— Ah, obrigada. — A cientista corou.
— Pena que você saiu do Laboratório. Você mandava bem por lá.
— Ah, mas sabe como é, né... Sem plano de carreira, salário estagnado... Resolvi empreender, dominar o mundo, e tamos aí, né, na luta.
— É... A gente tem que sonhar alto às vezes.
— É verdade.
— Mas e de onde você tira o dinheiro? Isso parece um investimento caro.
— Eu... ahn... eu tenho um Only Fans.
Ramona ergueu as sobrancelhas e sorriu enviesado.
— HmmMMmm! Quem te viu, quem te vê, doutora! — A androide mirou a cientista de cima a baixo com uma sobrancelha erguida. Doutora Braga corou novamente. — Quer dizer que essas pernocas aí estão a uma inscrição de distância, é?
— ...S-sim.
— Uai, me passa o link. Vou virar sua apoiadora. — Ramona puxou seu celular do bolso.
A mulher quase ejetou os olhos das órbitas.
— É O QUÊ?! Vo-vo-você quer me ver no Only Fans?!
— Uai, eu sempre te achei bonita! Meio caladona e distante, tipo uma potencial vilã gata. Pena que a gente nunca se falou antes.
A cor branca da pele deu lugar ao tom "lagosta cozida".
— Ahn... é... então... então tá... — Doutora Braga soltava vapor pelas orelhas. Seus óculos chegaram a embaçar. — Vo-você... ahn... você tem whastapp?
— Tenho.
Após uma troca de números e um link enviado, Ramona guardou o celular e disse:
— Show! Assim que a gente terminar de lutar eu entro lá!
— O-ok... E-e-então chega de papo! — Doutora Braga recuperou sua pose vilanesca e apontou para a arqui-inimiga. — Eu te atraí para o meu covil com o único propósito de te destruir e é isso o que farei! Se você quiser ver minhas... ahn... minhas... me ver no Only Fans, você terá de fazê-lo do ferro-velho! Robôs, ataquem!
— Não, espera, espera! — Ramona ergueu as mãos. Os robôs pararam. — A gente não pode resolver isso de outra forma? Sei lá... tipo... jogando xadrez? Ou truco? Você sabe jogar truco?
— Que mané truco! Eu vou te destruir até não sobrar nenhum parafuso seu atarrachado!
— Pô, mas eu não quero destruir seus robôs... (ou ser destruída). Eles ficaram tão fodas! E aposto que deu mó trabalhão para construir.
Doutora Braga se calou.
— É... deram mesmo... E me custaram uma grana.
— Viu só? Bora resolver isso de outra forma. Não quer jogar uma partida de Uno? Melhor de três?
— N-não, eu... eu tenho uma ideia melhor. — Ramona estranhou o desconcerto da doutora. — Q-quando eu pedi demissão do Laboratório, eu... ahn... roubei um protótipo seu antigo, antes de desenvolverem sua consciência, e... e acho que... que vou usar ele para ser sua oponente.
Ramona apertou os olhos, deu um sorriso enviesado, pôs as mãos na cintura, ergueu uma sobrancelha e perguntou lentamente:
— Você roubou um protótipo meu?
— Para estudos, tá! — Doutora Braga ergueu a voz, seu rosto da cor de um tomate.
— Estudos, é...? — Ramona a mirou de soslaio, desconfiada. — Se eu entrar no Only Fans, eu não vou me ver por lá não, né?
— N-não! Não... eu... eu... Esse protótipo é especial, eu... guardo ele para... estudos mais... ahn... para estudos mais... sensíveis...
— Doutora...
— Hm? — Doutora Braga mirava tudo menos Ramona.
— Você por acaso não me atacou com robôs fracos só para me atrair até aqui, perder propositalmente e ser... digamos... subjugada por mim, não é? — Ramona tinha os olhos apertados e as mãos na cintura.
Se a Doutora Braga fosse uma chaleira, a água estaria fervendo.
— Não, eu... eu... eu não... ahn... Ai, que vergonha! — Pôs as mãos no rosto. — Ai, sai daqui! Você estragou tudo! Meu plano era perfeito! Por que você tinha que me elogiar e pedir meu Only Fans?! — E saiu correndo chorando.
— Não! Não espera! Eu não quis... ai, bosta... — Vendo que a cientista iria escapar por uma porta no final da passarela, Ramona correu até as caixas intactas, saltou nelas e em segundos barrou seu caminho. — Ô, doutora, não fica assim, não! Eu achei super fofo o que você fez! Mandar robôs destruírem a cidade só para me... ahn... Tá, essa parte de destruir a cidade foi meio zoada, mas o resto foi fofo.
Ela se aproximou de braços abertos, em um convite para um abraço, mas foi rechaçada:
— Não! Para com isso! — Doutora Braga recuou. Tirou os óculos e limpou os olhos. — Você me acha ridícula! Você... você... Eu tinha tudo planejado e você estragou tudo!
— Ô, linda, desculpa mesmo. De coração. Eu não quis te magoar. — Vendo que a doutor continuava amuada, acrescentou:
— Me conta, vai, como você planejou o final do nosso embate? Eu fiquei curiosa.
Doutora Braga fungou e disse:
— Não... você vai achar ridículo...
— Não vou, não. Confia em mim. — O tom fez a cientista erguer o rosto e mirar a androide nos olhos.
— Vo... você quer mesmo saber?
— Quero.
— T-tá, então... então você iria destruir os robôs e eu fugiria para a sala atrás dessa porta, onde você me pegaria.
— Uai, por quê? O que tem nessa sala? — Ramona olhou para trás.
— Aí tem... ahn... — A doutora corou violentamente. — Tem umas algemas e… uma cama e…
A androide voltou-se para frente com os olhos arregalados e as sobrancelhas erguidas.
— Ai, que vergonha! Não, eu não quero falar! Eu... Vai embora! — E empurrou Ramona, que só deu um passo para trás.
A androide ficou séria.
— Doutora — ela chamou com a voz grave —, isso é só uma parada fetichista sua ou você realmente gosta de mim?
Houve um silêncio.
Um silêncio de rosto baixo, cheio de resposta. Uma lágrima pingou no chão.
Ramona a mirou por um segundo e então se aproximou.
— Sabe... é uma pena que você tenha saído do Laboratório. — A Doutora ergueu os olhos, estranhando o tom casual da androide. — Se eu soubesse que você se tornaria uma vilã — a cientista foi prensada contra parede apenas pela presença intimidadora —, eu teria ido atrás de você bem antes.
— C-como assim?
Ramona segurou os pulsos da doutora e os pressionou gentilmente contra a parede, imobilizando-a. Em silêncio, acariciou as palmas com o polegar, sentindo a maciez da pele, e então seu rosto a encarou e se aproximou.
— Doutora… — disse ela — …digamos que …se fosse eu a vilã... eu teria feito o mesmo com você.
O queixo da Doutora Braga caiu e as duas trocaram olhares. Um silêncio pairou quando de repente tudo fez sentido. Baixaram então os olhos e miraram a boca uma da outra.
Ramona mordeu seu lábio inferior.
A Doutora Braga respirava pesado, os lábios entreabertos.
Ramona se aproximou ainda mais.
— Você queria que eu te dominasse, é? — sussurrou baixinho.
A resposta foi um suspiro de desejo. As duas fecharam os olhos e Ramona sorriu.
— Então você agora é minha.
E se beijaram.

Amei
ResponderExcluirValeu! \OvO/
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