A princesa rasgou a carta em mãos e, após atirar os pedaços na lareira, rugiu:
— Malditos! Se pensam que poderão tomar de mim o trono de ferro, mostrarei a eles o poder dos meus dragões!
— Ahn... vossa majestade? — O conselheiro se aproximou.
— Opa! E aí, meu rapaz, fala! Foi mal, tava aqui putaça e nem te vi chegar.
— Então, minha rainha, eu gostaria de tratar de alguns assuntos a respeito da população.
A princesa franziu o rosto, confusa:
— Da popula-quem?
— População.
— O que é isso?
— Ahn… Seus súditos? As pessoas que moram em seu reino?
Houve um silêncio.
— Não sei de quem você está falando...
— Os cidadãos e os camponeses?
— Ahhh! Aquele povo que vive lá fora?
— Sim, vossa majestade!
— Ah! Aquela cabeçada toda mora aqui?! No meu reino?
— Sim, vossa majestade!
— Geeente! E eu achado que era tudo galera de férias no Airbnb! Não sabia que morava gente aqui, não.
— De onde vossa majestade pensava que vinham os impostos?! — O conselheiro estava incrédulo.
— Que impostos?
— Seu ouro, vossa majestade!
— Ah, sei lá! Achava que brotava dos cofres... Não é assim não?
— Não, vossa majestade.
— Sério?
— Sério.
— Rapaz… Mas e a comida? Ela brota da dispensa, né?
— Também não.
— Cê tá de sacanagem! Jura?
— Juro.
— Então ela vem de onde?
— Os camponeses produzem.
— Não! Isso é verdade?!
— É.
A princesa estava boquiaberta.
— Gente… tô passada! Nunca teria imaginado! E o exército?
— Também vem da população.
— Também?! Mas vem tudo da lopupação?
— População. Sim, vossa majestade. De onde vossa majestade pensava que vinham os soldados?
— Ah, achei que a gente jogava ouro e madeira no quartel e brotava gente de lá. — A princesa deu de ombros. — Tipo Age of Empires, saca? Achei que desse para gerar infinitos soldados.
— Não, vossa majestade. Cada soldado é um ser humano que teve que nascer, crescer e ser treinado.
A princesa apertou os lábios, subitamente culpada.
— É, é?
— É.
— É sério mesmo?
— Seríssimo!
— Vixe… — A princesa coçou a cabeça. — Então quer dizer que todo mundo que morreu nas batalhas era…
— Era.
— Puuutz…
Houve um breve silêncio no qual a princesa olhou em volta, desconcertada.
— Cara, tem certeza que não rola de jogar madeira e ouro e "puf": gente do nada?
— Não, vossa majestade.
— Tsc... — A princesa esfregou a nuca. — Pô, mas ninguém me avisou nada! Se eu soubesse disso antes, eu não teria começado a guerra.
— Foi o que eu aconselhei na época, vossa majestade.
— É... mas eu achei que fosse para economizar madeira e ouro.
— Não...
— Hm… Tá, essa foi uma pisada de bola minha. Foi mal. Bom, enfim, já que estamos falando em lopupação…
— População.
— Isso! Já que estamos falando em quem aparentemente faz tudo, vai lá, me conta mais. Bora falar de quem não morreu. O que esse povo todo fica fazendo aqui, nas minhas terras?
— Eles vivem aqui, vossa majestade. E dependem da senhorita para ter acesso à educação, saúde, segurança, transporte...
— Meu padim padi ciço! Pelas lagartixas cuspidoras de fogo! Eu tenho que dar tudo isso a eles?!
— Sim, vossa majestade! É a senhorita quem administra o reino! É seu dever garantir esses direitos básicos.
Houve um longo silêncio.
Um longo silêncio de mãos na cintura.
— Pô, Marquinho, mas e de onde eu tiro a grana pra isso tudo?
— Dos impostos.
— Mas e dá?
— Aí é uma questão de administrar o dinheiro.
— Pô, mas é muita coisa! Saúde, educação, segurança... Gente, até transporte eu tenho que oferecer?
— Tá, esse não precisa porque o primeiro transporte público só vai ser inventado bem no futuro. Mas o resto, sim.
— Putz... Cara... será que não rola deles fazerem uma vaquinha, não? Contratarem eles mesmos esses serviços?
— Não porque eles pagam impostos justamente para isso.
— Hm... Tá, ó, jogando ideia aqui, hein! E se eu... não fizesse... tipo… nada? Continuasse como se eu nem tivesse ouvido falar nessa tal de lopupação.
— População.
— Isso.
— O povo ia te cancelar, vossa majestade.
— Mas e eu tenho conta em alguma rede social?
— Não porque elas não existem ainda.
— Então qual é a treta?
— Eles podem te cancelar com uma guilhotina, vossa majestade. Já aconteceu antes.
— Eita... — a princesa alisou o pescoço. — Hm... Tá, ó, ideia aqui! E se a gente pusesse o povo pra assistir telecurso 2000? Pelo menos a educação tava garantida.
— Não dá, vossa majestade. Não existe TV ainda.
— Tsc... Tá e ensino à distância? Não rola um curso online? Alura? Hotmart? Domestika? Brilliant? Kiwico? Não?
— Não existe internet, vossa majestade.
— Ai, mas que saco! Não existe nada nesse mundo! A gente tem o quê então para resolver essas tretas?
— Hm... Temos dragões... espadas... ouro e... desinteria.
— Esse último não ajuda em nada.
— Não.
— Mas ouro dá para pagar por... ahn... professores?
— É um começo.
— Ok, então podemos contratar alguns, né.
— Seria bom, vossa majestade.
— E a saúde?
— Bom... primeiro era bom a gente desenvolver a medicina.
— Hm... Verdade... O povo nem acredita em vacina!
— É porque elas não existem ainda.
— Tá então bora pôr um ouro em pesquisa e desenvolvimento, que tal? Criar um Butantan, uma Fiocruz…? Quem sabe até criar uma agência regulatória, sabe, tipo a Anvisa.
— É uma boa, sim, vossa majestade. Podíamos criar um sistema único de saúde também.
— Pô, Marquinho, mas aí haja ouro, hein!
— Mas é importante.
— Hm… Tá, depois a gente vê isso. E a segurança? Podemos usar as espadas, que tal?
— Sim, mas temos que treinar o pessoal para não dar problema.
— É… Tem razão…. Vai que o cara confunde um guarda-chuva com um fuzil e mata um adolescente. Ou, sei lá, fuzila uma família inteira porque acharam que eram bandidos.
— É um pouco difícil porque ainda não existem carros, guarda-chuvas ou fuzis, vossa majestade.
— Ah, você entendeu, Marquinho! Vai que o moleque tá fazendo churrasco, o guarda pensa que ele tem um dragão e manda ele de arrasta pra cima. Tem que treinar a galera, sim. A polícia tende a ser meio… né… cê sabe. Discernimento mandou lembranças. Só porque a pessoa é preta, o cara acha que é das trevas! É foda… E ainda curtem matar criança quando trocam pipoco com bandido. Parece que não pode ver um de menor que já querem botar no colo de Jesus! Esse povo é tudo doido…
— Sim, sim, concordo, vossa majestade. Mas temos que pensar também em um sistema judiciário. Tem que ter todo um devido processo legal para quem é preso etc.
— É… E tem que pensar bem nessas leis aí, porque depois dá mó ruim. Pensa só, imagina que, sei lá, só um exemplo, um jogador de futebol é condenado por estupro, é preso, mas daí paga um milhão de fiança e sai solto. Não dá, né? Ou, sei lá, um riquinho mimado com nome de deus nórdico pega o carro do pai, atropela e mata alguém e nada acontece. Pô, fica chatão para a gente porque nós é que pensamos no sistema.
— Esses exemplos fora bem específicos, vossa majestade.
— Verdade.
— Mas sim, vossa preocupação é válida, porém, novamente, não existe futebol, fiança ou carros, então… é um cenário difícil de acontecer.
— Ah, sim, eu tava só, tipo, conjecturando… Vem cá, será que rola de aumentar imposto? Porque esses trem tudo aí vão custar uma nota!
— Hm… Mas aí o povo não vai gostar, vossa majestade.
— Pô, mas aí é foda, né, Marquinho! O povo quer tudo mas não quer pagar por nada!
— Eles já pagam, vossa majestade. Temos que administrar com o que temos e ganhar a confiança do povo.
— Hm... Tá. — A princesa coçou a testa. — Tá, então bora fazer uma reu... AAAI! — Fogo entrou pelas janelas. — CORRE MARQUINHO!
Uma voz veio de fora:
— O trono de ferro será meu! — Um alguém da realeza inimiga, montado em um dragão, fez um rasante e circundou a torre.
— Filho da puta! — gritou a princesa. — Marquinho, manda o exército atacar! Joga ouro e madeira por aí e faz mais soldados! Taca uns telecurso nessa lagartixa do capeta! Atropela geral com o carro do pai! — A princesa correu até a janela, os cabelos fumegantes marcando seu caminho com uma trilha de fumaça. Se apoiou no parapeito e gritou:
— Ô arrombado! Vai cuidar da tua lopupação e me deixa em paz! Eu tenho que organizar o orçamento pra uma porrada de bagulho!
— O trono de ferro será meu! O trono de ferro será meu!
A princesa revirou os olhos.
…e se jogou no chão quando outro jato de fogo entrou pela janela (— Ui, meu cabelo!). Marquinhos já estava deitado e o fogo passou por cima dele.
— Aê, Marquinho! — gritou a princesa. — Segura as pontas que eu já volto! — Ergueu-se e gritou pela janela:
— Jorge! Jorge, seu dragão safado, cadê tu?! Bora fazer uma churrascada aê!
Uma baforada de fogo vinda dos céus afastou o dragão rival e uma sombra negra passou voando diante da janela. O imenso dragão preto deu a volta pelo ar, revelando sua imensa forma e, quando passou sob a janela, a princesa saltou nele, sumindo os dois em combate acirrado.
— Já volto pra gente ver o orçamento, Marquinho!
Marquinho se sentou no chão e apagou uma chama na ponta de um fio de cabelo. Soltou um longo suspiro cansado e perguntou a si mesmo:
— Será que com a democracia seria muito diferente?

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