Os personagens desse conto são todos originários do universo de "Anjos e Vampiros", porém em um universo paralelo.
Eu costumo fazer isso com eles, huehuehuehue. Existe um outro universo meu, chamado "Piratas Espaciais", onde esses mesmos personagens vivem aventuras futuristas.
Então essa aqui é talvez a terceira variante do "multiverso".
Tá, agora chega de papo e vamos ao conto!
(Não deixe de comentar! Diga o que você achou da história! \OvO/)
Uma garra de latão segurava firme entre suas pinças uma pedra brilhando em um branco quente.
— Toma cuidado, Hilda — disse a voz preocupada de Greta. — Vai devagar.
— Não! Tá doida?! Se eu demorar demais esse troço vai derreter minha mão! — respondeu a irmã, tensa. Dava para sentir na sua voz o suor escorrendo pelo rosto. Suor quente e suor frio.
Um par de mãos enluvadas abriu rapidamente uma portinhola de cobre em três camadas (uma de pivotar e duas deslizantes) e a garra se aproximou, trazendo a pedra. O nicho por trás das portinholas abraçou o objeto incandescente e, assim que Greta o viu confortável lá dentro, fechou e trancou tudo tão rápido quanto abriu.
— Pronto! — anunciou.
As duas irmãs ergueram os óculos de solda para a testa e se afastaram alguns passos com as mãos na cintura. O farto rabo de cavalo cor de mel de Hilda e o cor de imbuia de Greta miraram lado a lado o manequim metálico parado de pé, de frente para elas, no centro da casa.
Estavam os três — robô e humanas — em um espaço quadrado cercado por três degraus, como uma piscina de madeira rasa sem água. Cozinha, área de serviço, oficina e “quarto” (duas redes de dormir), tudo era visível de onde estavam — todos dispostos sobre a área elevada ao redor —, bastando girar em torno de si mesmas para fazer um tour completo.
O tour da tralha.
Rodas dentadas, caixas de madeira pesadas com ferramentas, tubulações ziguezagueando pelo teto piramidal, chapas metálicas apoiadas contra a parede de alvenaria e madeira, lâmpadas e baterias elétricas empilhadas, lonas jogadas aqui e ali, mesas cheias de parafusos e restos de peças…
Acima, presos na viga central lááá no alto, vários modelos de aeronaves à vapor giravam lentamente, presos em suas cordinhas. Pareciam libélulas de cobre e latão. Por fim, atrás das duas redes, uma escada caracol de ferro subia sua espiral até perfurar o teto e sair ao ar livre. Dali entrava luz suficiente para contribuir com a iluminação da casa, em conjunto com a imensa janela circular ocupando toda uma parede.
— Está tudo pronto? — perguntaram as madeixa cor de mel de Hilda. Seu braço mecânico apoiava a garra de latão na cintura, sobre a grossa camada do avental térmico.
— Vamos ver… — Greta puxou uma lista do bolso. — Válvulas reguladoras de pressão. Ok. Integridade da caldeira. Ok. Sistema de computação eletromecânica. Ok. Gerador elétrico. Ok. Pedra de Gelo. Ok. Pedra de Calor…
— Ok — as duas irmãs disseram ao mesmo tempo. A lista baixou e Greta disse:
— É, acho que é isso. Vamos ao teste final. — As irmãs se aproximaram das costas do robô, onde haviam alguns mostradores de pressão e temperatura, e, confirmando estar tudo em ordem, Hilda girou uma válvula. No mesmo instante, o chiado de vapor encheu a casa, estalos elétricos se fizeram ouvir e o robô se moveu. As duas irmãs recuaram. A máquina se sacudiu de leve e esticou a coluna, como se pronta para receber ordens.
Greta e Hilda se puseram na frente dela de volta e os olhos de vidro assistiram às irmãs mirarem seu rosto em busca de sinais de problemas.
— Vamos testar uma ordem — disse Greta. — Robô, erga o braço.
Houve uma rápida sucessão de sons metálicos, como uma caixa registradora calculando, e o robô ergueu um braço. As irmãs sugaram o ar em espanto, sorrindo radiantes.
— Robô — chamou Hilda —, erga uma perna.
Outra sucessão de cálculos e o robô ergueu uma perna. Queixos caíram e suas donas foram à loucura. Soltaram gritos de animação e chegaram a pular abraçadas gritando “êêêê!”. O sistema de equilíbrio e o de processamento estava funcionando perfeitamente, o motor de Carnot também e o gerador elétrico, mais ainda.
— Caraca! Deu certo! — gritou Hilda jogando seus braços (o de carne e o mecânico) para cima e fazendo uma dancinha. — Agora é só levarmos ele para a feira e o prêmio será nosso!
— Sim! — Greta estava tão animada quanto. — Temos só que testar mais algumas coisas e ver se não…
BAM, BAM, BAM!
Greta se calou e as duas miraram a porta.
Seja lá quem estava do lado de fora não era um vizinho querendo açúcar. As irmãs gelaram.
— Merda… — disse Greta torcendo a boca. — É o Waldinho!
— Quem?!
— O agiota com quem eu peguei o dinheiro emprestado.
— Você pegou dinheiro emprestado com um agiota?! — Os olhos de Hilda quase saltaram do rosto.
— Ué, como você achou que eu comprei a Pedra de Calor?
— Como assim! Elas não custam tanto!
— Não antes do anúncio da feira. Agora que todo mundo quer uma, o preço tá, ó…
— Abram a porta! — uma voz berrou e outra sucessão de golpes se seguiu.
— Eu estou ouvindo vocês! Você, principalmente, Greta!
— Aqui não tem ninguém! — Gritou Hilda de volta. — Só fantasmas sem dinheiro!
— ABRAM LOGO ESSA PORTA, SUAS IDIOTAS!
— É, não deu certo… O que faremos? — Hilda perguntou à irmã.
— N-não sei…
Mas logo descobriu. As duas ouviram um abafado “Totó, faça as honras” e a porta voou lançada ao chão quando uma pata peluda a chutou. Um lobisomem de colete e chapéu coco se abaixou para passar pelo batente. Em sua mão via-se uma chave de grifo da altura das irmãs.
As duas arregalaram os olhos.
— Corre, Hilda! — Greta puxou a fuga na direção da escada em espiral, Hilda a acompanhando logo em seguida.
— Vem robô! — ordenaram as irmãs e o robô obedeceu, correndo no encalço das duas.
Os três subiram para a seção elevada, passaram pelas redes e alcançaram os primeiros degraus quando o lobisomem e um anão barbudo com duas luvas metálicas estavam passando pela “piscina”.
— Vai, vai, vai! — Hilda empurrou a bunda da irmã, que subiu as escadas de dois em dois degraus.
Saíram os três ao ar livre, em uma passarela de madeira que seguia pelo telhado e ao redor da versão em tamanho real de uma das miniaturas. A aeronave possuía um corpo em forma de gota comprida, bem aerodinâmico, com quatro assentos em fila e quatro asas de tecido. Um estabilizador vertical brotava da cauda, do que parecia ser uma mini-caldeira. Hilda sentou no assento do piloto.
— Robô, ajuda a Greta! — gritou por sobre o ombro e o robô obedeceu. Enquanto Hilda acionava algumas válvulas, ele e Greta ergueram um pesado galão de água e derramaram seu conteúdo em uma abertura.
Porém levaram tempo demais.
A cabeça felpuda do lobisomem apareceu nas escadas e logo estava de pé na passarela. Greta, a mais próxima e a de frente para o capanga, exclamou:
— Hilda! — A irmã olhou para trás e viu o gigante se aproximar. Saltou do assento do piloto e correu na direção do gigante quando este avançou na direção de Greta, pronto para esmagá-la com sua chave de grifo. Greta se jogou para trás no mesmo instante em que o robô ergueu as mãos para aparar o impacto.
Seus braços metálicos amorteceram o golpe, a chave quase atingindo sua cabeça.
Um “quase” que não se aplicou à Hilda.
Seu soco com a garra metálica foi em cheio no focinho do gigante. O lobisomem ganiu e cambaleou para trás, em cima do anão, que acabara de chegar. Enquanto os dois se embolavam, Hilda voltou correndo ao assento do piloto.
— Apertem os cintos! — ordenou e Greta pulou no assento atrás da irmã e o robô atrás de Greta bem no momento em que as asas começaram a vibrar, erguendo a aeronave.
O lobisomem correu e esticou a mão para segurar a cauda.
Hilda puxou o manche e embicou para cima.
A mão do lobisomem se aproximou.
…e agarrou o nada quando Hilda decolou.
Ao olharem para trás, viram o lobisomem e o anão xingando, ambos encolhendo com a distância.
— Ah! — Riu-se Greta. — Se fod…
— Greta! — Uma voz nova surgiu e os três, irmãs e robô, ergueram o rosto na direção do som.
Um navio voador, cheio de asas de libélula tal qual a aeronave de Hilda, baixou diante delas, barrando seu caminho.
— Eu, Freya, a pirata aérea, vim buscar o que me pertence! — Uma vampira cabelos loiros até o ombro e mechas ao redor das bochechas apontou uma espada na direção das irmãs. Estava de pé no convés com um sorriso triunfal por trás de seus óculos de solda, sua tripulação ladeando-a sob o balão de ar quente que sustentava a maior parte do peso da aeronave.
— Do que ela está falando?! — perguntou Hilda preocupada enquanto puxava o manche e dava meia-volta.
— Ahn… então… eu roubei a Pedra de Gelo dela.
— O quê?! — Hilda a mirou por sobre o encosto. — Você pegou dinheiro com um agiota e roubou uma pirata?! Tem alguém mais que possa odiar a gente que você tenha esquecido de me contar?!
— Tem o dono do bar. Não paguei a conta até hoje. Mas relaxa, ele não vai aparecer agora.
— Greta!
As duas irmãs olharam para baixo. Um sujeito na rua pulava e as xingava, furioso.
— É, parece que eu errei.
Hilda revirou os olhos e acelerou para longe da tal Freya, porém uma movimentação na passarela chamou sua atenção. O anão apontava uma de suas luvas de metal na direção da aeronave.
Não houve tempo para perguntas.
Uma explosão lançou a mão céu acima, uma corda seguindo-o feito uma cauda. Os dedos alcançaram e agarraram a borda do cockpit e a corda retesou, arrastando o anão consigo.
O lobisomem chegou correndo, agarrou a corda, pôs uma pata no parapeito e puxou. A aeronave freou subitamente, arrancando um grito das irmãs.
— Ei! — Freya reclamou. — Essas garotas são minhas!
— Ei, que história é essa?! — Uma moça de cabelos platinados pôs as mãos na cintura.
— Não, amor, não nesse sentido! É só ocê quem eu amo. — Lançou um beijinho e sua parceira sorriu. — Bora, meu povo, disparar arpão!
Outra explosão, dessa vez de uma abertura no casco do navio, lançou um arpão em cheio na outra lateral da libélula voadora, um pouco atrás do robô, e começou a puxar.
O lobisomem amarrou a ponta da sua corda no parapeito e a fuselagem gemeu quando a aeronave se viu presa em um cabo-de-guerra.
— Qual delas a gente corta primeiro?! — perguntou Hilda mirando a mão de metal de um lado e o arpão cravado na fuselagem, do outro.
— B-boa pergunta — respondeu Greta um segundo antes de ver a vampira pirata saltar na corda esticada e correr na direção delas como se ali fosse chão firme, uma espada em cada mão.
As irmãs arregalaram os olhos, Hilda já erguendo a mão de metal para se proteger de um golpe, mas Freya passou reto por elas.
Saltou por sobre a libélula, pisou no cabo do outro lado e desceu até a casa.
Nesse momento as irmãs perceberam uma enorme bateria elétrica nas costas da vampira, feito uma mochila, da qual saíam dois cabos, um para cada espada. O lobisomem tentou acertar as canelas de Freya com sua chave de grifo, mas a pirata deu uma pirueta por cima do gigante, caiu às suas costas e apenas encostou a lateral da espada em sua coxa.
ZAP!
Foi possível ver o esqueleto do lobisomem em meio a um relâmpago, um segundo antes de surgir em seu lugar uma figura fumegante de olhos arregalados.
Uma chama queimava em um pelinho do topo de sua cabeça.
O lobisomem soprou fumaça e desabou no chão no mesmo instante em que o anão puxava uma pistola do cós de sua calça.
— Eita! — Freya arregalou os olhos e…
BLAM!
…defletiu o projétil com a espada.
— Amor! Preciso de cobertura!
BLAM!
Outro disparo, outra defesa, faíscas voando do contato entre os metais.
— Pode deixar! — A moça dos cabelos platinados e repicados puxou uma comprida carabina e…
BLAM!
…o anão recuou quando o chão entre seus pés estourou em uma chuva de farpas.
Outro tiro o fez recuar outro passo.
Greta, aproveitando a confusão, ordenou:
— Robô, arranca o arpão!
O robô obedeceu. Enquanto puxava o vergalhão de metal, Greta usava uma chave de fenda de seu avental como alavanca para abrir os dedos da mão metálica. Com a força do autômato, o arpão saiu fácil, porém Greta, com sua força humana, estava tendo dificuldades.
Percebeu uma movimentação e, ao erguer o rosto, viu Freya correndo corda acima, em sua direção, enquanto a moça de cabelo platinado forçava o anão a recuar para dentro da casa aos tiros.
— Saaai! — Greta abriu um, dois, três dedos.
No quarto, Freya saltou um segundo antes da corda perder tensão.
A mão caiu frouxa, a libélula se afastou de supetão e a vampira fez um arco na direção da aeronave, sua mão esticada à frente, uma espada pendurada pelo cabo elétrico.
Freya teria se estatelado na rua, não fosse uma vampira. Não apenas contava com força sobre-humana como possuía o poder da levitação.
Sua trajetória se esticou além do que seria o esperado e sua mão agarrou o estabilizador vertical na cauda no último segundo, seu peso e seu impulso puxando o rabo da aeronave para baixo e em um giro forçado.
— Ah! — Greta gritou e se agarrou na borda do cockpit enquanto Hilda travava a mandíbula e tentava recuperar o controle.
Com essa súbita rotação, Freya, pendurada pelo braço, teve um vislumbre de algo que fez sua espinha gelar.
Quando a libélula virou-se de frente para a casa, Waldinho estava chegando no telhado com uma gatlin portátil, a fita de balas balançando e seus seis canos dourados se erguendo em uma mira em cheio na direção da aeronave.
Hilda, Greta e Freya arregalaram os olhos um segundo antes de…
RATATATATATA!
…uma rajada de balas passar voando bem onde antes estavam as cabeças das irmãs (Freya sentiu o corpo perder peso com o mergulho súbito). A aeronave deu uma guinada em fuga, porém o som do motor parando gelou novamente as espinhas das três.
O arpão havia atingido o reservatório de água, fazendo chover seu conteúdo na rua.
As asas pararam de se mover.
— Eita… — Hilda gemeu.
— Lídia! — berrou Freya ao sentir as tripas levitarem quando a aeronave começou a planar em círculos, fugindo dos tiros. — Solta a escada! RÁPIDO!
A moça dos cabelos platinados obedeceu.
Lançou um bolo de cordas e tábuas pelo parapeito do convés e a escada se desenrolou entre a libélula e a casa.
RATATATA-click.
A munição da gatlin acabou.
— Piloto! — Freya gritou.
— Tá, já entendi! — Hilda gritou de volta e mirou a trajetória na direção da escada.
Freya desligou sua bateria, puxou-se para cima da fuselagem com a levitação, correu ao longo da aeronave — as espadas frouxas penduradas — e agarrou as irmãs pelo cangote das roupas.
— Ui! — As duas levaram um susto ao se verem arrancadas dos assentos.
— Robô! — ordenou a pirata. — Segura na escada!
O robô apenas esticou os braços e abriu as mãos.
Quando a último degrau passou por ele, agarrou-o e ficou pendurado enquanto a aeronave seguia em linha reta, na direção da casa.
…para o terror do anão, de Waldinho e do lobisomem tostado.
A libélula atravessou o telhado e colapsou a estrutura inteira sobre si mesma com um estrondo.
Hilda e Greta, presas feito filhotinhos de gato nas mãos da vampira (levitando), tendo assistido à cena, sentiram o peito pesar.
Isto é…
Até serem erguidas na altura do rosto de Freya.
— Olá — disse ela sorrindo por trás de seus óculos de solda. As duas irmãs gelaram.
— P-por favor, dona pirata, mata a gente não — Hilda gaguejou, mas Freya enrugou a testa.
— Matar?! Não, menina! Eu vim é cobrar reparações pelo roubo dae sua irmã. — E mirou a morena em sua outra mão, o sorriso ainda no rosto.
— E-e-e que tipo de reparações você tem em mente? — Greta mirou Hilda, ambas tremendo de medo.
— Eu quero o robô e a promessa ‘docês de trabalharem pra mim.
— Você quer que a gente trabalhe para você?! — as irmãs exclamaram em uníssono.
— Uai! Mas é claro! Ocês são inventoras de mão cheia! Juntas seremos uma equipe imbatível!
— Mas e a feira? — perguntou Greta. — A gente pretendia ganhar o primeiro lugar…
— Esquece a feira! A gente consegue bem mais ouro em um único saque!
As duas irmãs trocaram olhares e então miraram sua casa destruída. A cauda da aeronave brotava do buraco, as costelas de madeira do telhado todas expostas. Um pedaço das telhas desabou e uma nuvem de pó se ergueu.
De repente labaredas altas surgiram ao redor da libélula, muito provavelmente causadas pela sua Pedra de Calor ao incendiar o piso de madeira.
As duas irmãs miraram a vampira e disseram ao mesmo tempo:
— Quando começamos?
Freya sorriu.
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