As rodas da carruagem voavam pela estrada de terra.
Saltavam ao atingir cada buraco ou pedra, lançando um dos lados do veículo para o alto, quase derrubando a condutora. Helena soltou um grito quando, por pouco, não rolou para fora do assento. Teve que se segurar na borda para não cair direto na boca de um dos três lobisomens em perseguição, dois deles ladeando a carruagem a apenas um metro atrás dela. As feras já haviam devorado o condutor original e agora queriam sua carne.
Cada monstro era uma muralha músculos em uma silhueta humanóide de quase dois metros de altura. As cabeças de lobo arfavam e babavam, famintas por carne humana, enquanto as enormes patas caninas e as imensas mãos com unhas capazes de decapitar com um golpe rasgavam o solo a cada passo. Os seis — dois cavalos, Helena e os três lobisomens — seguiam por uma estrada sinuosa, iluminada apenas pela lua cheia e pela lanterna na lateral do veículo. Árvores secas margeavam o caminho, seus troncos e galhos parecendo pulsos com mãos tentando agarrar viajantes incautos. Os olhos dos cavalos quase saltavam das órbitas. Suando em profusão, galopavam no mais puro desespero, na tentativa de se distanciar dos monstros.
Mas era inútil.
Com tantos solavancos, o peso da carruagem os atrasou o suficiente para que as feras gradualmente ganhassem terreno. Os lobisomens emparelharam com eles e, de um salto, cravaram suas presas direto em seus pescoços. Os cavalos relincharam e tombaram em meio ao próprio sangue, seguidos pela carruagem. A torção do eixo de madeira girou o veículo, capotando-o de lado.
Helena foi lançada ao ar e, por sorte, conseguiu cair de pé e rolar, amaciando o impacto. Terminou de borco, toda arranhada e esfolada, porém mais intacta do que esperava. Ao virar-se de costas e remover seus cabelos loiros do rosto, deparou-se com os três lobisomens brigando pela carne equina.
Essa era sua chance! Levantou-se, agarrou as saias do vestido e partiu em fuga. Correu em busca de qualquer brecha no matagal que a tirasse da estrada, mas tudo o que via sob a pálida luz lunar era uma muralha de mato e árvores retorcidas aprisionando-a naquele caminho maldito.
De repente, o som de farejar a atingiu e sua espinha gelou. Olhou para trás, para a abrupta curva na estrada, e, mesmo sem ver o lobisomem, soube que um dos três perdera a briga e agora a estava buscando. Ela precisava de uma saída dali a qualquer custo! Achou uma leve falha no matagal e se enfiou à força, o coração na boca.
O vestido agarrou nos galhos, quebrou-os, rasgou-se, mas Helena conseguiu avançar, especialmente com o som de farejar espetando-a nas costas. Suor frio e quente desciam pelo seu rosto. Por trás de seus olhos arregalados e boca ofegante, a imagens de seus pais e seu noivo pulsavam incessantemente. Se morresse agora, eles jamais encontrariam seu corpo.
Isso porque não haveria um para ser encontrado.
Terminaria como restos dilacerados, devorada até não sobrar nem os ossos.
Lágrimas desciam de seu rosto quando deu de cara com um velho portão de ferro. Freou e tentou abri-lo, mas não deu dois puxões, o som de galhos estalando a fez voltar-se para trás de sobressalto. Helena sentiu a alma tentar sair do corpo. Uma silhueta a encarava de pé, os olhos brilhando em amarelo, as mãos abertas em garras. Apesar da escuridão, a jovem podia ver claramente a saliva de fome escorrendo pela enorme mandíbula. Voltou-se às pressas para o portão e, com toda sua força, abriu-o o suficiente para passar. …bem na hora em que o lobisomem correu em sua direção.
A fera chocou-se contra as barras mal a jovem alcançou o outro lado, atordoando a si e quase derrubando a moça. A fera rugiu de dor e Helena correu em direção ao que parecia ser um castelo.
Assim como no portão, teve que usar de toda sua força para mover as pesadas portas de madeira e se esgueirar para dentro. Ouviu seus passos ecoarem em um grande salão iluminado por altos vitrais, a luz pálida da lua desenhando o formato das janelas no piso. Contornando as paredes laterais do salão, escadarias subiam até uma sacada central onde, abaixo dela, o piso seguia adiante, provavelmente para outro salão. Helena fez menção de correr para lá, porém uma figura barrou seu caminho. Por um segundo, quase cuspiu o coração, mas ao identificar ser uma mulher, exclamou:
— Socorro! Por favor me ajude! Tem um lobisomem me perseg… — parou de falar quando a figura se aproximou e a luz da lua a banhou. Agora Helena cuspiu o coração.
Olhos vermelhos luminescentes, pele pálida, caninos brilhando em uma boca de lábios negros…
— Ah, não brinca… — Helena soltou, os ombros cedendo, um segundo antes de ouvir a porta atrás dela ranger. Sua coluna se retesou ao ser dar conta de quem era. Fez menção de olhar para trás, mas a visão da vampira arregalando os olhos e a boca ganhou sua atenção.
Silvando feito um gato, a criatura voou em sua direção, os cabelos negros esvoaçando feito tentáculos. A jovem soltou um berro, jogou-se para fora do caminho e correu na direção da escadaria mais próxima. Dali, do primeiro degrau, Helena viu a vampira e o lobisomem se degladiarem na soleira da porta, a vampira tentando achar uma brecha para atacar e o lobisomem tentando fatiá-la.
Helena não ficou para assistir ao combate. Subiu de dois em dois degraus até alcançar a sacada central, momento em que ouviu um grito. Olhou para o salão e viu a vampira rolar para longe, sangue manchando o piso. O lobisomem rosnou, vitorioso e então mirou Helena, no topo da sacada. A jovem arregalou os olhos e correu.
Avançava agora por um corredor, a fraca luminosidade insinuando a presença de várias armaduras ao longo das paredes cheias de portas. O ofegar do monstro invadiu o espaço e, ao olhar para trás, Helena o viu emoldurado contra os vitrais ao fundo. Desesperada, jogou-se contra a porta mais próxima e tentou abri-la. Enquanto sua mão escorregava na maçaneta, viu de relance a vampira surgir caminhando feito um animal pelo teto, como se saída de um pesadelo, um sabre em mãos.
A maçaneta girou e Helena entrou no que parecia ser um quarto. Cama dossel, armário, baú, penteadeira… Estava buscando uma saída dali, quando uma movimentação à porta a fez voltar-se para trás. O lobisomem rosnava e se debatia no corredor, mas na escuridão não foi possível identificar o que estava acontecendo, apenas que a vampira o estava atacando.
Helena grudou suas costas contra a parede de frente à porta e assistiu à vampira empurrar o monstro para fora do caminho e entrar de ré no quarto, o sabre firme em mãos. A vampira foi recuando à medida que o lobisomem entrava também, este cambaleando, claramente ferido. A fera soltou rugidos baixos e tentou arranhar sua adversária, que apenas se esquivou e…
Cravou a espada em cheio no pescoço do monstro.
O lobisomem amoleceu e, no puxar da lâmina, tombou sobre o tapete.
Helena não respirava. Pressionava seu corpo contra a parede como se quisesse atravessá-la, o coração pulsando nos ouvidos e os olhos cravados na figura à sua frente. A vampira estocou o lobisomem mais uma vez, no coração, garantindo assim sua morte. Arrumou os cabelos, voltou-se para a jovem e perguntou:
— Você está bem?
Helena piscou.
— Oi?
— Eu perguntei se você está bem. — A vampira se aproximou. Notou o olhar em direção à espada e a largou no chão. — Não se preocupe — ergueu as mãos —, eu não vou te machucar.
Helena estranhou.
— V-você não vai m-me morder? — Seu corpo tremia da cabeça aos pés.
Apesar da pouca luz, foi possível vislumbrar um sorriso. Uma risada fungada se fez ouvir e a vampira se aproximou, deslizando pelo chão como se flutuasse. Helena foi pressionada contra a parede apenas pela presença daquela figura, que disse a um palmo de seu rosto:
— Depende… — seus olhos vermelhos passearam pela jovem. — Posso morder se você quiser.
— N-não, não precisa — respondeu Helena e a vampira soltou uma risada suave, quase sedutora. Recuou um passo e os olhos vermelhos baixaram.
— Vejo que está noiva. — Helena sentiu a aliança no dedo. — E posso dizer que seu coração não bate por ele. — A jovem foi pega de surpresa e os olhos vermelhos se ergueram para mirá-la. — Nem por ele e nem por seus demais pretendentes, estou certa?
— C-como… Po-por que diz isso? — perguntou, sentindo-se nua.
A vampira meramente fungou uma risada.
— Qual o seu nome? — A jovem hesitou e então respondeu:
— He… Helena.
— Helena… Helena, vou lhe fazer uma proposta.
— Q-que proposta? — Sua testa brilhava com suor frio.
A vampira fixou seus olhos nos da jovem e respondeu:
— Você pode vir morar aqui comigo, neste castelo, vivendo sua vida como lhe aprouver, ou pode voltar à sua vida de sempre, casar-se com seu Fulano, ter quantos filhos ele desejar e ser uma… boa esposa. Caso escolha essa opção, garantirei sua segurança até sua casa e chegará nos braços de sua família são e salva. Caso decida ficar… — fez uma pausa — …bom… lhe darei o poder necessário para não precisar obedecer a mais ninguém.
Helena balbuciou pensamentos incompreensíveis e, quando conseguiu formar uma frase, disse:
— V-você está propondo me… me…
— Exatamente — a vampira foi categórica. — Mas, como eu disse, a escolha é sua — e se afastou. Nesse momento, mais vampiras surgiram no quarto, parecendo emergir das sombras. Pares de olhos vermelhos se abriram aqui e ali e, quando Helena se deu conta, estava cercada por seis silhuetas femininas, todas mirando-a intensamente.
As vampiras abriram a passagem, liberando caminho até a porta.
— Eu não estou prometendo o paraíso — disse a líder. — Aqui você nunca mais poderá ver a luz do sol, não poderá mais conviver com seus parentes e amigos como antes, terá de se alim…
— Eu aceito.
Todas as vampiras piscaram, pegas de surpresa. Houve um breve silêncio antes da líder retomar a palavra:
— Pense bem, Helena. Pense em tudo que você terá de abrir mã…
— Eu já pensei — sua voz saiu firme, cortando-a. Helena deu um passo adiante. — Eu não estava na estrada para encontrar meu noivo ou meus pais. Eu estava fugindo deles — e tirou a aliança do dedo. — Isto — a ergueu sob a fraca luz — seria minhas economias para iniciar a vida em Vesta. Mas você me ofereceu uma opção melhor. Então eu aceito.
A líder fungou uma risada e, como uma brisa, surgiu diante da humana, que quase caiu para trás de susto. Só não caiu porque foi envolvida gentilmente por mãos pálidas em um suave abraço.
— Se está tão certa assim de seu coração, se é esse é o seu desejo… — a vampira sussurrou ao pé do ouvido de Helena e a beijou ao longo do pescoço um par de vezes. A jovem fechou os olhos, arfando. — …que seja feita a sua vontade.
E abriu a boca.
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