Djinn - Parte I (Ópera espacial)


Aviso aos leitores:

Esse conto é consideravelmente maior do que os demais, por isso ele foi dividido em 2 partes, sendo cada parte dividido em seções.

1

A música eletrônica era onipresente. Envolvia Hahasiah — sentada no balcão do bar — como água envolve um peixe. Sua cabeça estava pesada, baixa, e a mão direita segurava um drink à base de sangue. Apesar da pele cinza-chumbo e dos olhos de esclera negra e íris incandescentes, a vampira não chamava muito mais a atenção do que qualquer outro ali. Com a variedade de raças (demônios, anjos, vampiros, androides, humanos, kemonos, lobisomens etc.) e sendo o público majoritariamente LGBT+, o que não faltava era variedade de visuais. Cabelos coloridos, chifres, gargantilhas, orelhas de gato, modelitos ousados, olhos luminescentes, unhas pintadas, rostos lupinos, caudas… tudo isso sobrepujava e muito a peculiar aparência da vampira cinza. Principalmente porque, exceto pelos olhos e a pele, Hahasiah seguia um visual bem mundano: cabelos pretos e lisos descendo pelas costas. Ponto. Nenhum brinco, nenhuma pulseira, nenhum broche, nada. Apenas uma roupa azul.

Embora esta, sim, chamasse um pouco de atenção.

Na direção oposta dos modelitos ousados, a roupa era um uniforme. Um uniforme militar. Coturno, gola alta, tecido bem passado… Atraía olhares, era fato, mas nada digno de nota. Dada a guerra contra o planeta Zarin, não era incomum esbarrar com soldados pela cidade aproveitando o pouco que restava de suas vidas ou afogando seus transtornos em álcool. 

Hahasiah lembrou-se de que a essa hora sua cerimônia já havia começado e fechou os olhos com força, o rosto se torcendo em fúria. Apertou o copo e quase o estourou na mão. Puxou um papel do bolso e o mirou com os caninos arreganhados. “Dispensa com desonra”, lia-se ali. O resto pouco importava; os motivos, as mentiras, nada daquilo importava. Hahasiah amassou o papel com todo seu ódio e invocou chamas negras. Por fim, quando abriu a mão, não havia mais nada, nem mesmo o mais fino pó. Agarrou seu copo cheio do drink vermelho e o entornou num gole só. Bateu o copo na mesa e girou no banco, ficando de costas para o balcão. Apoiou os cotovelos na bancada e olhou para o público dançante, disposta a afogar suas mágoas em um belo par de lábios.

Seus olhos vampíricos perfuraram sem dificuldade a escuridão colorida, mirando rosto por rosto até pararem em uma androide sentada sozinha em uma das mesas altas margeando a pista de dança. Sua aparência era jovem como o público local, por volta dos 18 anos, tendo do queixo para baixo um corpo magro e esguio, de material metálico e preto, todo articulado como um action figure de anime. Dizer que estava seminua seria no mínimo controverso — afinal, era uma máquina —, mas suas roupas se resumiam a uma bombacha amarela e coturnos, deixando o tronco e os seios rígidos sem mamilos à mostra. 

Acima do pescoço preto e mecânico, o rosto caucasiano imitava um de carne e osso, embora as linhas de junção descendo dos olhos até a linha da mandíbula entregassem sua natureza sintética. E da cabeça até a cintura, um mar ondulante cor de mel descia em belas madeixas. 

A androide marcava o ritmo da música com a cabeça e um dos pés, os olhos passeando pela boate, até notar a mirada fixa de Hahasiah. A androide sorriu; um sorriso safado, enviesado, cheio de malícia. Suas sobrancelhas dançaram em uma cantada. Hahasiah riu, devolveu o sorriso sacana e balançou as sobrancelhas, imitando-a. As duas riram. A androide a chamou com a cabeça e Hahasiah não se fez de rogada. Fosse pelo álcool, fosse pelo tempo desde sua última “aventura”, fosse pelo desejo de um pouco de prazer, o fato é que se levantou e seguiu em linha reta até aquela gracinha.

A androide girou na cadeira e se pôs de frente para receber sua paquera. Quando Hahasiah estava a um metro, saudou-a:

— E aí, gata, quer pedir um dr… — mas foi calada por um beijo em cheio naqueles lábios sinteticamente macios. A garota arregalou os olhos, mas logo os fechou quando a língua da vampira cinza invadiram sua boca, saboreando-a. Ainda sentada, a androide se deixou levar. Passou os braços por trás da nuca de Hahasiah e esta imitou o gesto, as duas se engolindo em um beijo selvagem. Gritos de “u-huuu!” se fizeram ouvir e as duas riram de canto de boca. 

Hahasiah então subitamente afastou os lábios, pegou a androide pela mão e a puxou na direção dos fundos da boate, no qual se viam nichos circulares cavados na parede, suas entradas exibindo cortinas lilás de cetim. Os nichos ocupados se viam fechados enquanto os livres estavam abertos. Ali, dois degraus abaixo do nível do piso, estava um sofá preto circular margeando a borda do espaço e uma mesa baixa e circular, preta fosca. No centro do tampo, reluzia a tela desligada de um tablet.

Hahasiah fechou a cortina atrás de si após entrarem, ligou o campo de força que servia de porta e disse com malícia:

— E aí? Bora? — indicou com a cabeça a tela do tablet. A androide, sentando-se no sofá, mirou o aparelho e riu.

— Estamos famintas hoje, não? — disse com seu sorriu sacana. — Eu normalmente prefiro um bom papo antes, mas acho que vou abrir uma exceção para você.

Hahasiah sorriu de volta e se aproximou para outro beijo. Saborearam-se por mais alguns instantes antes de se separarem. 

— Posso ligar? — Hahasiah apontou para a tablet.

Só se for agora. — A androide sussurrou no ouvido cinza-chumbo e a ex-militar, rindo, bateu o dedo na tela, que pareceu acordar depois de uma soneca.

— E aí? Qual você prefere? — O tablet exibia botões enquanto a verdadeira tela, um retângulo holográfico opaco levitando sobre a mesa, mostrava opções de cenário. 

— Tanto faz. Vamos naquele ali que parece um quarto de motel — apontou a androide largada no ombro de Hahasiah, seus rostos colados.

— Beleza! — Hahasiah puxou um aparelho preto do bolso, similar a um aparelho auditivo, porém preto e aerodinâmico, o pôs atrás da orelha e se conectou ao aplicativo da tablet. — Você tem já o app?

— Tenho — a androide bateu na própria têmpora com o indicador.

— Já se conectou?

— Já.

— Beleza. Vou dar o “ok” aqui. Se prepara.

— Manda ver.

Hahasiah apertou um botão e o nicho sumiu.

2

O quarto virtual era quaaase perfeito. Apesar da qualidade, bastavam olhos atentos para notar sua natureza digital. 

Ok, para falar a verdade, sua natureza digital era mais do que patente. Bastava ignorar o cenário e olhar para as duas figuras nuas na cama. A pele de Hahasiah nunca fora tão perfeita. Nem a dela e nem a da androide, cujo corpo era renderizado como a de uma humana de carne e osso. E como uma evidência a mais, mesmo após toda a intensa atividade física, não apenas suas madeixas estavam impecáveis, como nenhuma das duas exibia uma única gota de suor.

— E aí? Tu embarca quando? — perguntou a androide deitada de lado, apoiada em um cotovelo, ela e Hahasiah de frente uma para a outra. A militar baixou os olhos e soltou uma risada amarga.

— Eu não vou para a guerra. Não mais.

— Ué! — A androide ergueu as sobrancelhas. — Então porque todo esse tesão? Achei que tu fosse para Zarin, tipo… amanhã!

— Então… É justamente porque eu não vou que eu fui com tudo para cima de você. — Hahasiah sorriu triste e a androide perguntou:

— O que houve? Dispensa médica? 

Hahasiah suspirou.

— Não... Dispensa com desonra… — Mirou de soslaio a androide, que esticara o rosto em espanto. A vampira fungou uma risada amarga e explicou:

— Eu fui enviada para uma missão que tinha tudo para dar errado e… deu tudo errado. E deu errado exatamente como eu havia predito aos meus superiores. Perdemos… — a voz de Hahasiah falhou e seu rosto se sombreou. Um pesado silêncio pairou no quarto até que conseguisse resumir em uma frase:

— Apenas eu e mais meia-dúzia saímos vivos de mais mil. — A androide enrugou a testa, chocada. Os olhos da vampira estavam perdidos no lençol virtual, quase como se pudesse ver cada rosto renderizado entre as dobras. — Não só ignoraram os meus avisos e levaram à morte um batalhão inteiro, como meus superiores resolveram me culpar pelo fracasso. Puseram nas minhas costas todos os erros da missão (erros deles que eu avisei) e me fizeram passar por um processo judicial militar humilhante que destruiu minha carreira. Hoje foi a cerimônia de expulsão (inclusive, deve estar acabando agora)

Puuutz… — O rosto da garota era de puro pesar. Aproximou-se da vampira cinza, passou gentilmente uma mecha de cabelos negros para trás da orelha e segurou sua mão com carinho. — Que merda, gata…! E agora? Tu tem outro emprego em mente?

Hahasiah fungou uma risada triste. Segurou a mão humana da androide com afeto e disse:

— Pensei em entrar para a iniciativa privada. Ser uma mercenária, uma caçadora de recompensas, sei lá… — Deu de ombros.

— Qual era a sua patente?

— Major.

A androide arregalou os olhos.

— Caraca, tu era mó graúda! Como tu conseguiu subir tanto assim sendo tão nova? Tu tem quantos anos?, vinte e poucos?

— Vinte e cinco. E eu subi rápido porque morria gente rápido… — a resposta saiu amarga. — Foram uns cinco majores desde que eu entrei como soldado. Essa guerra tá um moedor…

— Pô, mas ainda assim! Tu é major! Isso é foda! Me aí passa teu currículo, vai que eu conheço alguém. Me fala um pouco de você.

Hahasiah soltou uma risada.

— Saí de uma trepada para uma entrevista de emprego, é? — disse e a androide riu.

— Não, sério, pô, vai lá! Quero saber o que tuas habilidades e tals.

— Ah, eu tenho altos cursos de estratégia, um monte de bosta inútil sobre legislação militar, gestão de pessoas… ahn… — Hahasiah vasculhou a memória. — Tá, de prático mesmo, eu fui umas das melhores da minha turma e sou uma maga espectral.

A androide franziu o rosto.

— O que é isso?

— Eu sei fazer magias espectrais — e pôs a palma de uma mão para cima, sobre a qual surgiu uma chama negra. — Por isso minha pele é cinza e meus olhos brilham. É o efeito da mana correndo pelos meus fluxos e pontos de chakra. Consigo lançar arpões de nuvens de fumaça e me teletransportar.

O queixo da androide estava no colchão.

Ca-ra-le-ô! — exclamou com os olhos brilhando. — Puta merda, então tu é mó foda!

Hahasiah riu encabulada.

— Valeu.

— Cara, com um currículo assim tu não fica sem… — e sumiu.

Hahasiah piscou em sobressaltou ao ver a garota simplesmente desaparecer, deixando para trás uma aba flutuante com a palavra “offline”. 

Estranhando, a vampira se desconectou e, ao emergir de volta em seu corpo recostado no sofá, levou outro susto. Pelo menos cinco oficiais da tropa de choque da polícia estavam parados na entrada do nicho, dois dentro e três fora, todos mirando pesados fuzis na direção da androide. Usavam roupas táticas, colete à prova de balas e capacetes pretos cobrindo todo o rosto.

Hilda, você está presa por pirataria, contrabando e sequestro! — O líder rosnou através do alto-falante do capacete. — Vira de costas e põem as mãos na parede! AGORA! — O fuzil espetou o ar.

A androide tinha o rosto torcido em um esgar de “droga, me acharam”. Mirou Hahasiah de soslaio (que assistia à cena de olhos arregalados) e, com as mãos erguidas, levantou-se muito lentamente. 

Anda! De costas! — O cano se aproximou e empurrou a androide no braço, forçando-a a girar.

Foi um erro.

Hilda passou o braço pelo cano do fuzil, o abraçou com força contra as costelas e lançou a ponta dos dedos em um golpe em cheio na garganta do policial. O sujeito engasgou, levou as mãos ao pescoço e soltou a arma. Os demais oficiais fizeram mira, mas Hilda puxou o oficial ferido pela gola do colete para sua frente e apoiou o cano do fuzil em sua ombreira. 

Hahasiah arregalou ainda mais os olhos e se jogou no chão entre a mesa e o sofá.

Ratatatata!

Hilda atirou oficial dentro do nicho, derrubando-o sentado no sofá, e então fez mira nos três na porta. Porém antes que pudesse apertar o gatilho, uma bola preta foi jogada sobre a mesa, onde quicou e rolou até cair próximo dela. Hilda arregalou os olhos, mas não havia o que pudesse fazer. Uma onda luminosa partiu da granada, junto com raios lambendo as paredes, e seu corpo amoleceu como se desligado.

No curto silêncio que se seguiu, Hahasiah se ergueu e viu a garota largada no sofá, como se drogada, apenas seus olhos se movendo. As duas se encararam, Hilda mirando-a de soslaio. 

No instante seguinte, os três oficiais do lado de fora entraram. Um deles prestou socorro ao colega atingido e os outros dois se uniram ao que tivera o fuzil roubado. Aproximaram-se de Hilda com as armas mirando-a no rosto, os olhos da androide encarando os canos sem qualquer expressão facial.

Sua putinha! — O oficial ferido tossiu, rosnou e deu um soco no rosto sintético. A cabeça virou para o outro lado. O fuzil caído foi recuperado e policial encostou o cano na têmpora da androide.

Aê! — disse na direção dos colegas — “A criminosa reagiu e morreu após intensa troca de tiro”?

Manda ver! — Os demais assentiram.

O risinho do oficial foi audível. Estava para puxar o gatilho quando uma nuvem de fumaça negra e suja de fuligem surgiu rodopiando por trás de Hilda e a engoliu. A androide mergulhou em queda livre no redemoinho como se devorada pelo sofá e ali desapareceu. No dissipar da fumaça, os oficiais olharam em volta, perplexos, buscando qualquer sinal dela, quando notaram um outro dissipar de fumaça.

A militar sumira.

3

O beco se via imerso em breu quando um redemoinho negro surgiu sobre o asfalto. Uma figura humana, mole feito uma boneca de pano, emergiu dali como se jogado para cima e tombou no chão duro com estardalhaço, próxima de alguns latões de lixo. Hilda ficou estirada do jeito que caiu, a bochecha contra a rua. Ao lado dela, outro redemoinho de formou e Hahasiah emergiu dali, também lançada ao alto, porém sua levitação vampírica corrigiu sua trajetória e a ex-militar caiu de pé.

— Você está bem?! — perguntou ao alcançar a androide.

Masomensss… — disse a boca mole.

— Tá, calma! Eu conheço uma oficina! — Hahasiah ergueu e jogou a menina de metal sobre o ombro sem qualquer esforço. — Eu vou te ajudar, não se preocupe! — Abriu imensas asas negras e caiu velozmente céu acima.

4

O elfo se empurrou para trás em sua cadeira de rodinhas e se afastou do computador. Três cortinas de plástico opaco presos em trilhos no teto formavam um ambiente quadrado dentro de um cômodo maior, cheio de peças de androides pelos cantos. No centro, via-se Hilda, deitada no que parecia ser a cadeira de um dentista. Vários cabos serpenteavam pelo piso de concreto, vindos dos cantos mais aleatórios, até alcançarem o computador, a cadeira e uma bancada cheia de ferramentas, gavetas e uma lupa articulada. Hahasiah estava fora da área quadrada, De frente para Hilda, apoiada de costas contra uma coluna e de braços cruzados, apenas aguardando.

— Tenta se mover agora — o elfo pediu, sentado diante da androide. — Reiniciei seu sistema de fluxos, os tendões de mana devem estar todos de volta. O sistema elétrico também já está funcionando. Troquei alguns fusíveis queimados e a placa de processamento de movimento.

Hilda assentiu e ergueu as mãos. Girou-as 360o nos pulsos e depois abriu e fechou os dedos. Saltou da cadeira e girou os ombros, deu alguns chutes, socos… Estava tudo em ordem.

— Valeu, doutor, quanto te devo? — perguntou ela.

— Duzentos créditos. Mais pela placa queimada do que pelo serviço.

— Tá… Aceita pix?

5

Cinco minutos depois e 200 créditos tcharianos a menos, Hilda subia a escadaria de concreto da oficina em direção à rua, acompanhada de Hahasiah. Seu rosto estava pesado em direção aos degraus.

— Eu… não peguei seu nome, desculpa.

— Hahasiah. O teu é Hilda, não é?

— É — ela assentiu, encabulada. — Então, “Rarrásia”... — ergueu a cabeça e mirou a mulher cinza — …cara, eu te devo a minha vida. 

— Relaxa. — Hahasiah deu dois tapinhas nas costas da androide e lançou-lhe uma piscadela. — Quando eu vi os caras indo te executar ali mesmo, eu só agi no automático.

— Relaxa, nada, pô! Tu me salvou mesmo sabendo que eu sou uma criminosa! — Emergiram da passagem de concreto para o foco de luz de um poste na calçada. — Tu quer quanto? — Parou e mirou Hahasiah nos olhos, as mãos na cintura.

— Quanto o quê? — Hahasiah franziu o rosto, confusa.

— Ué, grana! Eu sou uma pirata, tu ouviu lá. Me passa um valor que a gente fica quites.

— Que é isso! Vou te cobrar nada, não! — Hahasiah pareceu chocada com a oferta. — Depois de Zarin… eu não quis ver alguém morrendo de graça. E você me pareceu gente boa. 

Hilda fungou uma risada.

— Essa é a primeira vez que me chamam disso. 

— É sério. Eu gostei de você — disse Hahasiah e Hilda sorriu. — Vem cá, você não está precisando de mais alguém na sua tripulação? Eu estou desempregada, você é uma “empreendedora”… Acho que os nossos interesses se alinham.

A androide arregalou os olhos.

— Tu quer ser uma pirata?!

— É isso ou ser uma mercenária ou uma caçadora de recompensas.

— Sim, mas tu quer entrar para o crime?

— Olha… — Hahasiah suspirou pesado e disse: — O que eu quero é sair desse planeta. Essa guerra não está pendendo para o nosso lado e em breve os zarinianos vão ocupar Tcharin (se é que não vão resolver terraplanar tudo e transformar o planeta em um estacionamento…) Então ir com você não é só arrumar um emprego, mas salvar meu couro.

— Gata… pensa bem… Eu sei que a guerra tá ruim, mas se tu vier comigo, tu vai virar procurada e pode passar pelo que eu passei ainda agora.

— Eu já passei por pior. Beeem pior. Acredita. — Seu tom foi pesado.

— Cara… — Mas Hilda ainda estava incerta.

— Tá, olha o que eu sei fazer. — Glóbulos de fumaça negra surgiram acima da cabeça de Hahasiah e, dali de dentro, arpões negros foram disparados, fincando-se no concreto. Segundos depois sublimaram sem deixar rastros. O queixo de Hilda caiu. Mirou Hahasiah e disse:

— Ok, tá contratada.

Hahasiah riu. 

— Sério mesmo?

— Então… eu ainda acho burrice sua, mas se você está disposta, então bora. Ter alguém com a sua expertise realmente faria a diferença.

— Beleza — Hahasiah sorriu. — Eu só preciso fazer minhas malas antes.

— Claro! Bora lá que eu te ajudo. Mas ó, antes de irmos, é bom tu saber que tem duas condições para fazer parte da minha tripulação! — Pelo tom e o indicador em riste, Hahasiah aguardou em silêncio. — Primeiro: tu vai continuar com esse uniforme, mas nós vamos personalizar ele! — Hilda sorriu sacana e Hahasiah riu novamente. — E segundo! (Calma que ainda não acabou) Segundo: eu vou te chamar de “Rásia” porque Rarrásia é muito complicado. — Hahasiah gargalhou.

— Ok! Acho justo. Negócio fechado?

— Fechadíssimo!

E apertaram as mãos.

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