Djinn - Parte II (Ópera espacial)

 

6

No vácuo completo as estrelas não cintilam.

Como é que você entrou para a pirataria? — A voz de Hahasiah saiu no rádio mental. As costas do uniforme (agora totalmente tingido de cinza) exibiam uma jolly-roger estilosamente inclinada e escorrendo tinta. Ao seu lado, uma comprida e esvoaçante jaqueta exibia o mesmo símbolo, bem como espinhos dourados ao redor da gola alta, emergindo das dragonas nos ombros e coroando os pulsos das mangas vazias flutuando no vazio espacial. O quepe preto só não se afastava das madeixas de mel (presas em um coque firme) porque estava bem fixo na cabeça sintética. Na cintura, um blaster de um lado e uma espada de calor na outra.

Cara… tu não vai acreditar. Eu acordei um dia numa maca dentro de um galpão no planeta Origem. — Hilda estava de braços cruzados, de pé, a menos de um palmo da superfície externa da nave. Ela e Hahasiah conversavam através do rádio mental. A vampira usava o poder mágico de repulsão de suas asas para pressionar-se contra a fuselagem enquanto sua capitã “levitava” ao seu lado.

Caraca! Sério? — Hahasiah a mirou com o rosto perplexo. — E como é que você foi parar lá?

Cara… então… não sei. Eu acordei sem saber nada sobre mim, exceto meu primeiro nome.

Você tá brincando! — Os olhos incandescentes, protegidos por magia para não ressecarem no vácuo, se arregalaram. O tal “aparelho auditivo” piscava toda vez que recebia ou emitia um sinal.

Cara… pior que não. — Hilda a mirou de volta. Acima das duas, como um teto distante, estava um gi-gan-tes-co cargueiro, grande o suficiente para fazer a nave de Hilda parecer uma pílula. — Eu acordei no meio daquele caos que teve alguns anos atrás na cidade de Neonelly, não sei se tu lembra. Saiu em tudo quanto é noticiário.

O caos da crise econômica?

Esse mesmo. A cidade tava em pé de guerra, galera de extrema esquerda e extrema direita se matando pelas ruas, queimando prédio, empresa e o caralho, exército e polícia matando os dois lados… Tava esse dedo no cú gritaria quando eu acordei.

Caraca, e aí? — Hahasiah tinha os olhos fixos na amiga.

Aí eu fiquei na moita. Nisso eu vi que no galpão tinham vários terminais de computador e mais algumas macas vazias, mas antes que eu pudesse dar uma olhada e entender que porra era aquela…

Capitã? — Uma voz interrompeu a conversa. 

Opa! Fala, Panz! — Apesar da curiosidade com o resto da história, Hahasiah prestou atenção.

O sistema anti espectral já foi desativado e a porta do galpão está aberta. Podem vir.

Beleza, estamos indo.

Perfeito! Ficamos no aguardo.

Ok. Bora, lá, Hasiah! Faz teu show. Depois eu termino de te contar a história.

Entendido — Hahasiah respondeu protocolar e se concentrou. Seus olhos pareceram vasculhar algo que só ela via enquanto seus cabelos esvoaçavam suavemente e pequenos fiapos de fumaça se formavam e se dissipavam ao seu redor. Quando se viu pronta, anunciou: — Achei nosso ponto de entrada. Vou ativar a magia.

Manda ver, gata!

O redemoinho de fumaça se formou diante delas, Hahasiah segurou a amiga pelo braço e a puxou para dentro junto consigo. O mundo ao redor se torceu, como se mergulhassem em manchas de tinta cuja paleta era a mesma do espaço sideral e da nave pirata. Quando as cores trocaram para algo mais complexo e retomaram sua solidez, ganharam a forma de uma porta de galpão aberta, um campo de força barrando a entrada, 4 androides armados com fuzis — todos de jetpack — e um tripulante de laranja se borrando de medo do lado de dentro. 

Bora, galera — Hilda os chamou e todos atravessaram o campo de força como se passassem por uma bolha de sabão. Feito para impedir a passagem de moléculas rápidas (gases), mas não as lentas, os seis não tiveram qualquer de dificuldade de entrar no pequeno galpão secundário. Pousaram no piso de aço e Hilda mirou o tripulante. 

— Bora, rapaz, dá o caminho até o galpão.

O rapaz assentiu claramente tenso e guiou o caminho na direção da saída mais próxima. Luzes vermelhas e brancas iluminavam um corredor comprido e avermelhado, cujo teto, paredes e o chão sob o piso gradeado se viam cobertos de tubulações. Escapes eventuais de vapor se dissipavam, tornando nebulosa esta ou aquela seção.

— Credo, parece cenário do filme do Alien! — exclamou Hilda.

— É mesmo… — Hahasiah torceu a boca e os demais piratas (e o tripulante) concordaram.

— Bom, fiquem espertos. Duvido que hajam alienígenas perigosos, mas é possível que hajam pessoas armadas. Se aparecer alguém… — Hilda sacou o blaster — …vira refém.

Refém. Por favor — pediu Hahasiah. — Nada de matar a galera.

— Pode deixar, gata. Eu sou do mau mas sou do bem.

Hahasiah riu. Hilda acertou seu quepe e a jaqueta sobre os ombros e, após um tapinha no ombro do rapaz (que faltou cuspir o coração) seguiram em frente.

7

Qualquer nave espacial atravessa o espaço usando os chamados “motores espectrais”, que, em três palavras, podem ser resumidos em: uma Hahasiah artificial. Ao invés de manterem uma maga espectral em cada nave, as embarcações se valem de máquinas equipadas com círculos de magia impressos a nível molecular, capazes de fazer exatamente o mesmo que a vampira, com a diferença que o alcance é muito maior. Enquanto Hahasiah não consegue se afastar por mais do que algumas dezenas de quilômetros, a naves atravessam segundos-luz, minutos-luz, quem sabe até horas-luz, tornando o frete interplanetário coisa de minutos. Porém, entre cada salto há um tempo para os motores resfriarem e o próprio tempo para a criação do portal. Diferente de Hahasiah, os motores não invocam redemoinhos, mas sim uma fumaça que precisa envolver por completo a nave antes que ela entre no hiperespaço. E uma nave com mais de três campos de futebol de comprimento, leva um tempinho até conseguir se defumar o suficiente.

Ou seja… Se você for um pirata e sabe de quanto em quanto uma nave cargueira salta, basta esperar de braços cruzados na rota certa e pronto: “rendam-se ou atiraremos”. Sendo assim, negociações e ameaças à parte, os piratas se viam agora num dos galpões de carga, diante de uma parede de containers. 

Representando 99% da área útil do cargueiro, o galpão era capaz de abrigar com folga um campo de futebol tanto em largura quanto em altura. Multiplicando isso pelo seu comprimento, temos 3 milhões de metros cúbicos de espaço, contendo mais de 48 mil containers. O piso de aço contava com marcações em amarelo e branco, além de avisos e símbolos envoltos em triângulos e fendas para encaixe de ganchos e travas. As paredes de metal, com mais de 10 polegadas de espessura, exibiam colunas soldadas e rebitadas para maior reforço, tendo em sua superfície um serpentear de tubulações aqui e ali. Na quina do teto, holofotes equidistantes iluminavam o ambiente. A muralha de paralelepípedos encaixados uns nos outros — 43 containers de largura por 43 de altura, 1849 ao todo — subia até quase alcançar o topo, a quase 100 metros de altura, onde um guindaste robótico e amarelo aguardava o comando para movê-los. No momento ele baixava os do topo, cujo destino seguia o mesmo de seus irmãos no piso: portas arrombadas e o conteúdo levado para a nave pirata através do tal motor espectral. Colocavam os objetos em uma área demarcada, passavam as coordenadas e pronto, a fumaça os levava.

Enquanto Hahasiah coordenava a remoção da carga, Hilda se aproximou dos vinte e poucos homens de macacão laranja sentados nos chão, todos algemados com tiras plásticas às costas. 

— Não fiquem chateados — disse ela. Trazia em cada mão uma garrafa de vinho, ambas roubadas de uma caixa de madeira aberta dentre várias outras fechadas. Um ninho de palha vazava seus fiapos para fora, revelando mais corpos de vidro verde escuro. — Aqui, ó, galera — ergueu as garrafas —, vinho para geral! — Depositou uma na frente do capitão, um humano de barba grisalha, e a segunda diante do imediato, um demônio verde e jovem se tremendo todo. — Vou deixar as caixas ali e depois vocês dois dividem com o resto da tripulação, beleza? Para não dizerem depois que eu sou ruim.

Mas o capitão cuspiu aos pés de Hilda.

— Eu não vou aceitar mercadoria roubada, sua… sua pilantra!

Hilda tentou franzir o rosto, mas cuspiu uma risada involuntária.

— “Pilantra”... Já me chamaram de tudo (filha da puta, maldita, piranha, vagabunda… até de gente boa me chamaram!), mas isso aí, nunca. — Riu novamente e finalizou: — Bom, capitão escoteiro, eu vou deixar o vinho aqui e você decide o que fazer. Se quiser guardar, beber, dividir entre seus homens… enfiar no cú… é contigo. — Deu meia-volta e ouviu:

— Ei, chefe! Vem ver isso aqui! — Um androide de moicano de espinhos e um olho só em forma de fenda acenou para ela. Estava parado diante de uma grande caixa de madeira aberta com uma bússola dourada e um livro velho em mãos. Hilda se aproximou com uma ruga de interrogação em seu rosto e, ao ver o que havia lá dentro, seu rosto se iluminou.

— Olha só, Panz! — ela riu. — Acho que encontramos as tralhas do Indiana Jones! — Panz soltou uma risada. Hilda revirou o conteúdo da caixa e encontrou ali um globo do planeta Origem, vários e vários livros antigos, broches de várias universidades, mapas, um amuleto de pedra com a imagem de um olho, fotos de escavações arqueológicas… — Opa! Acho que encontramos um tesouro! — Hilda ergueu um rolex da caixinha de madeira, onde estavam as fotos. Sorriu para o subalterno (que riu de volta) e voltou a antenção para as fotos. Sua expressão derreteu. Puxou uma delas, mirou-a com os olhos apertados, mirou os tripulantes e enrugou o cenho.

— O houve, chefe?

Hilda não respondeu. Largou a caixinha dentro da caixona e se aproximou dos homens algemados.

— Ei, você aí de barba preta! Isso, você mesmo. Isso aqui é teu? — e ergueu o relógio.

A pele do homem era da cor de canela, mas por um segundo, quase alcançou o tom branco da neve.

— N-nô, eu… — ele gaguejou com um forte sotaque. — Nô ser meu, mas de chefe de pesquisa! Eu ser só escavador! Trocar de emprego para trabalhar em nave espacial.

— É mesmo…? Panz! — Hilda virou a cabeça meio de lado, seus olhos fixos no humano.

— Fala, chefe!

— Traz as fotos da caixa de madeira! Hasiah, dá um pulo aqui! — Em menos de um minuto, os dois se aproximaram e emparelharam com a capitã. Sem mover os olhos do homem, a capitã apontou para os papéis nas mãos de Panz. — Olhem essas fotos e me digam se esse senhor aí tem cara de chão de fábrica. 

Hahasiah mirou o homem e soltou um risinho como quem já entendeu. Baixou os olhos e acompanhou Panz passar imagem por imagem. O homem e sua barba preta apareciam aqui e ali coordenando escavadores, ao lado de algum objeto recém-encontrado, feliz em meio a uma equipe de pesquisadores… O sorriso sacana de Hahasiah se ampliou.

— Olha… se eu tivesse que adivinhar — disse ela —, diria que naquela caixa tem algo valioso o suficiente para valer a pena acompanhar o frete por medo de dar ruim. — Ela e Panz ergueram os rostos e miraram o homem nos olhos, que se tremeu todo. Hilda abriu um sorrisão ganancioso.

— Mas que coincidência. E não é que eu pensei exatamente a mesma coisa? Acho que devíamos dar uma olhada e ver o que é. O que vocês acham? — Hilda mirou os dois.

Nô! Nô! — O homem sacudiu a cabeça, impossibilitado que estava de gesticular. — Vocês não entender, eu trazer uma djinn! Iinah makhluq khatirun! La yumkinuk fath aljarat wa'iilaa sanamut jmyea!

— É o quê?! — Hilda franziu o rosto. Hahasiah, ao contrário, enrugou a testa, pega de surpresa.

— Calma lá, eu entendi o que ele disse! Ele está falando em hallan!

Sério?! — Panz e Hilda se voltaram para ela velozmente.

— Caralho, mulher, tu é foda assim?! — A capitã arregalou os olhos. — Eu sei que vampiros conseguem se conectar com a mente dos humanos e entender línguas estrangeiras, mas puta merda! Como é que tu sabe especificamente que língua é essa?!

— Não, calma, eu reconheci a língua porque eu falo ela. Para aprender magia espectral, a gente tem que ler vários textos em hallan, então eu tive que aprender. Ele disse que trouxe um djinn em uma urna e implorou para que não soltássemos ele ou morreríamos todos.

— O que é um “djinn”? — Hilda torceu o rosto.

— É parente de um “sayajin "? — Panz brincou, para a diversão de Hilda.

— Djinn é uma criatura folclórica (tipo um saci ou o Papai Noel) que de, acordo com as lendas, seria puramente feita de mana espectral.

— Tá e qual é o perigo dele?

— Nenhum, eles não existem. São só lendas — Hahasiah deu de ombros.

Nô, nô, nô! — O homem sacudiu a cabeça, a testa brilhando suor. Ele parecia em pânico. — Eles son reais! Urna de deserto ter djinn! Se abrir urna, djinn mata nós!

— Ah, cara, pelo amor de deus! — Hahasiah revirou os olhos. — Você também acredita em gnomos? Olha, capitã, relaxa, o maior perigo é a gente destruir sem querer um artefato histórico de valor incalculável (o que realmente seria ruim).

— Concordo. Não é legal destruir artefatos de valor incalculável. Mas ainda assim eu adoraria pousar meus vermelhos e sintéticos olhinhos nessa tal “urna”. — O homem abriu a boca para protestar, mas foi sumariamente calado por um indicador, um “shhh!” e um segurar de bainha da espada. — Panz, Hasiah, bora fazer uma pequena escavação naquela caixa.

8

Apesar dos protestos do homem (cujo nome era Amir), a tal urna foi encontrada em menos de cinco minutos. Estava embrulhada em um grosso tecido e amarrada com barbante, sendo na verdade uma pequena caixa incrustada de argila e terra ao ponto de ser impossível dizer de que material era feita. Possuía mais ou menos do tamanho de um porta-jóias e, no centro da tampa, via-se um grosso disco.

— Não me parece lá muito perigosa… — Hilda revirou a caixa nas mãos. Panz e Hahasiah a ladeavam, os três parecendo decepcionados. — Pô, eu esperava um troço mais legal.

— G-guardar isso, p-por favor! — Amir suava como se dentro da caixa houvesse uma ogiva nuclear.

— Isso aqui sai? — perguntou a garota segurando o disco.

Nô! Nô puxar! Nô pu…

— Ih! — Hilda olhou para o disco em mãos. — Putz, foi mal! — Enrugou a testa. — Eu nem fiz força, ele só saiu! Será que dá para colar de volta? — Tentou recolocar o disco, mas sem sucesso.

Amir conseguiu se levantar às pressas, mesmo com as mãos presas às costas, e recuou. Seu rosto estava lívido. Estava para receber uma bronca quando a caixa começou a vibrar violentamente nas mãos de Hilda e soltar uma fumaça negra, sendo imediatamente largada no chão, onde continuou a quicar como se estivesse viva. Todos, tripulantes inclusos, recuaram às pressas fugindo daquela coisa esfumaçando feito um incêndio. Os três piratas restantes se aproximaram para ver o que estava acontecendo quando…

CRAC!

…a tampa explodiu. Imediatamente um tornado de fogo negro emergiu de lá de dentro, junto com um vendaval que quase derrubou quem estava de pé. O tornado se dobrou feito uma cobra, seguiu na direção dos containers, enfiou-se por entre suas frestas e, da mesma forma que surgiu, sumiu. O vendaval cessou e o silêncio que engoliu no galpão foi sepulcral.

— O-o que aconteceu? — perguntou Hilda, seus olhos do tamanho de pratos.

— A-acho que foi o djinn… — respondeu Hahasiah no mesmo tom e com a mesma cara.

— Caralho, Hasiah! — Hilda a encarou. — Como assim era o djinn?! Não era para ele não existir?!

— Era… — sua amiga respondeu, incrédula, as duas mirando-se mutuamente em silêncio.

Tolos! — gritou Amir. Todos se voltaram para ele. — Seu ganância condenar todos! Djinn agora solto e todos morrer!

Tsc! Panz, solta a galera! Zapan! — chamou no rádio. — Deu ruim! Abre espaço aí para mais 26 homens! Estamos evacuando o cargueiro agora!

O que aconteceu, capitã? — a voz de Zapan surgiu preocupada.

— Depois eu te explico. Eu preciso…

Capitã, o motor perdeu suas coordenadas!

— Como assim perdeu?! Tenta achar de novo, ué!

Então, ele não acha. Não tá encontrando nem o interior do cargueiro. O que está acontecendo aí?

— O djinn deve estar afetando o tecido do espaço-tempo — explicou Hahasiah, o rosto em choque. Fiapos de neblina se dissiparam ao seu redor e os cabelos relaxaram. — Como ele é feito mana espectral, a presença dele distorce o espaço ao redor do cargueiro e atrapalhar os sensores da nossa nave.

Djinn? Que porra é essa? — Zapan estranhou.

— Calma lá, Zapan, aguenta aí que eu já explico! Hasiah, você não consegue teletransportar a gente?

— Não. Eu acabei de tentar criar pontos de contato com a nave, mas só consigui dobrar o espaço dentro do cargueiro. Eu não consigo tirar a gente daqui. Estamos presas.

— Não, calma! — Hilda ergueu a mão. — Essa barreira impede a passagem de pessoas e objetos?

— Talvez… Quando eu tento dobrar o espaço entre aqui e a nave para formar o túnel, meus caminhos são dobrados até voltar para o mesmo lugar. Então isso pode acontecer também com pessoas e objetos. Se a gente tentar sair fisicamente, podemos acabar voltando para o ponto de origem.

— Calma lá, isso pode acontecer ou vai acontecer? Porque se você estiver errada, podemos trazer os trajes-robôs e tirar o pessoal daqui. Mandamos eles no automático, colocamos a galera dentro e pronto.

Nô! Nô! — Amir protestou enquanto massageava os pulsos. Panz cortava uma a uma as tiras plásticas dos tripulantes, faltando poucos para terminar. — Nô poder deixar djinn solta! O única saída de cargueiro ser usar amuleto para controlar djinn! Encontrar djinn e… — Mas Hahasiah franziu o rosto em fúria e o interrompeu:

Calma lá! Você quer ter controle o djinn para você, né! Hilda — o homem perdeu a cor e a maga voltou-se para a capitã, seu indicador apontando para Amir —, eu estou captando as intenções dele claras feito água! Ele não trouxe o djinn. Ele roubou! Ele quer usar aquela coisa!

O olhar de todos recaiu em Amir, que os mirou de volta. Engoliu em seco e disse:

— Nô importar meus motivações. Sem derrotar djinn, estar presos aqui — sua voz saiu firme.

Hahasiah soltou um suspiro irritado, massageou o rosto e disse:

— Cara, eu odeio ter que admitir, mas ele tem razão. Enquanto estivermos aqui, essa coisa pode nos atacar. E vai por mim, Hilda, se esse bicho realmente for feito de mana pura, nossas armas não vão servir de porra nenhuma. Temos que controlar o djinn antes que ele mate todo mundo.

— Tá, então você vai controlar o djinn. Panz, traz o amuleto para a Hasiah. — O pirata assentiu e se afastou. — Você sabe usar esse troço?

— Assim… eu sei as lendas… (Valeu, Panz) — Hahasiah recebeu o objeto em mãos (— De nada, Major). — Todo mundo que estuda magia espectral ou a história de Ibal-Halla conhece esses amuletos e os encantamentos, mas é isso… é tudo lenda. Ninguém nunca testou porque ninguém nunca viu um djinn antes. Então… tipo… na teoria eu sei. Eu só espero que funcione na prática.

Hilda não pareceu gostar nada da resposta.

— Tá… — disse, resignada. — Vamos fazer o seguinte: eu, você, Panz e Amir vamos caçar o djinn. Gart, Fen e Nova vão ficar aqui, protegendo a galera. — Mirou os três androides e apontou para os tripulantes. — Qual-quer sinal de merda, vocês corram, ouviram? — disse mirando todos. — Protejam esse pessoal e dêem cobertura a eles. Eu sei que a Hasiah disse que as nossas armas não servem de nada, mas não custa arriscar.

Gart, Fen e Nova assentiram e empunharam seus rifles blaster.

— Ótimo. Capitão coxinha, como o senhor conhece essa nave melhor do que ninguém, vou deixar o senhor no comando aqui — disse mirando o humano nos olhos. — Mas, ó! Cuida bem dos meus homens tanto quanto o senhor cuida dos seus ou eu vou atrás de você, hein! — Hilda segurou a bainha da espada com uma das mãos como se fosse sacá-la. — Se eu sequer suspeitar de uma traição, eu te faço em pedaços! Eu me fiz clara?

— S-sim. — Apesar do medo, o capitão assentiu com firmeza.

— Ótimo! Então, bora! Hasiah, Panz, Amir… sigam-me os bons!

9

O único som nos corredores vermelhos eram os passos metálicos dos quatro pelo piso gradeado e o eventual “shhhh” de um escape de vapor. Pistolas e fuzil blaster em punho, o grupo seguia as indicações de Hahasiah, que conseguia sentir as distorções espaço-temporais e apontar na direção do djinn.

— Continua a tua história, Hilda — pediu Hahasiah com a voz tensa. — Você acordou no galpão e...?

Hilda fungou uma risada amarga.

— Tu tá com medo? — mirou a amiga.

— Tô!

Outra risada amarga.

— Então somos duas. Tá, continuando do ponto em que eu parei, eu estava num galpão cheio de terminais de computador e algumas macas quando uma galera da nossa tripulação invadiu fugindo do caos lá fora (o Panz tava junto, inclusive). Na época, o capitão era um androide babaca chamado Ney e quando o cara me viu, veio todo escrotinho, todo cheio de graça para cima de mim, querendo me “usar” para passar o tempo. Cara, eu juro que é verdade o que eu vou te contar agora (o Panz tá aqui para não me deixar mentir), mas foi aquele merda pôr a mão no meu ombro que eu só agi no automático. Sentei-lhe uma porrada… mas uma porrada, Hasiah, que quando eu vi, tinha matado o sujeito. — Ao ouvir aquilo, Amir, que já estava calado, ficou duas vezes mais calado.

— É verdade — Panz confirmou ao ver a expressão da major. — A capitã deu tanta porrada naquele cara que o cristal de memória dele quebrou! Mas foi merecido. Aquele cara era um puta escroto. Gritava com a galera, punia injustamente, só favorecia a panelinha dele… Teve uns três péla saco que tentaram se vingar e… mano… a capitã surrou os cara dum grau… — Amir ficou três vezes mais calado.

— Hehe… — Hilda soltou uma risadinha. — Foi lá que eu achei a minha espada, inclusive — disse dando tapinhas na bainha. — Eu descobri nesse dia três coisas: meu nome, que eu sei matar no soco e que eu consigo fatiar os outros igual queijo. — Amir faltou engolir a própria boca.

— Caraca! Mas e aí? Tu foi embora junto com a galera para a nave? — perguntou Hahasiah.

— É — Hilda deu de ombros —, eu não tinha para onde ir, então meio que… ahn… obriguei os caras a me adotarem? — Panz soltou uma risada. — O Panz assumiu como capitão por um tempo e eu como tripulante até que a galera foi vendo que eu saco dos paranauê para administrar e tals, e daí o próprio Panz me passou o cargo e hoje eu sou essa coisinha linda de jaqueta fashion.

— Mas e o resto da tripulação? O povo te aceitou de boas? Porque vamos ser sinceras, tem um pessoalzinho meio chato. O Fez é um que aposto que encrespou contigo.

— Ah, ele chorou, mas depois que viu o que eu fiz com os que tentaram me foder, ele baixou a crista.

— Haha! — Hahasiah soltou uma risada. — Eu imagino o quão porradeira você é. Se não fosse por aquela bomba de pulso eletromágico lá na boate, aposto que você teria fugido da polícia sem problema.

— “Sem problema” é um pouco otimista, mas eu certamente teria conseguido sair de lá andando.

— Com certeza. Tá, mas e aí? Você descobriu alguma coisa sobre o seu passado?

— Então, eu meio que ameacei o Panz e a galera a me esperarem e tentei buscar alguma coisa nos computadores, mas tudo tinha senha. Não consegui nem ver a tela do desktop. Eu sou boa em porrada, espadas e mandar nos outros, mas como hacker eu sou um cocô. Bati então fotos do meu rosto e pedi para a assistente do meu celular buscar por mim nas redes. Ela achou a minha conta no MeuPerfil e eu descobri que o meu sobrenome é “Oiméca”... “Oiél-miéka”... algo assim (é um sobrenome esquisito). Vi o feed todo e achei imagens da minha família, de uma demônia que eu acho que é minha irmã, vi a gente numa casa… mas nenhuma foto me pareceu familiar. O estranho é que as minhas postagens e a do perfil da minha irmã param de repente uns dois meses antes do dia em que eu acordei no galpão. Eu tô achando que rolou alguma coisa comigo, alguma coisa fatal, porque nas fotos, eu sou de carne e osso! Eu cheguei a mandar mensagem para essa demônia, mas estou esperando resposta até hoje… Acho que aconteceu alguma coisa com a minha família porque todo mundo sumiu das redes.

— Caraca… que sinistro…

— Muito…

— Ahn… de-desculpar interromper, m-mas nós estar chegando perto de djinn? — perguntou Amir.

Hahasiah se concentrou por alguns segundos e então disse:

— Sim. Ele deve estar aqui por perto em algum lugar. Em breve a gente vai sentir alterações gravitacionais. Vamos sentir como se o chão estivesse se inclinando, atraindo a gente em relação a um ponto central. É ali que ele deve estar. — Mal terminou de falar, os quatro sentiram exatamente isso: uma suavíssima atração em direção a uma das paredes, como se a nave estivesse emborcando. 

O aumento da tensão foi palpável. Seguiram como se descessem uma suave ladeira, buscando os corredores onde a atração se intensificava, até pararem na porta do refeitório. Hilda alcançou a maçaneta, seu corpo inclinado em relação ao piso, e mirou os três atrás dela. Ela, Panz e Hahasiah ergueram seus blasters. A capitão assentiu e contou silenciosamente com os dedos: três, dois, um! Abriu a porta e entrou, a pistola buscando o alvo. 

Quando o achou, Hilda freou e arregalou os olhos. Os demais entraram logo em seguida, cada um imitando-a à medida que viam a criatura. O djinn estava de pé, de costas para os recém-chegados, sua forma lembrando uma sombra, uma silhueta de fogo negro com cinturinha, um belo quadril, chifres finos em forma de “S” e cauda em seta. Apesar do som da maçaneta e das solas emborrachadas derrapando, a criatura não pareceu interessada em que ver quem havia entrado. O ambiente ao redor parecia muito mais interessante. Estava parada no centro de um aglomerado de objetos — cadeiras, mesas, talheres, um microondas… tudo o que podia ser arrastado por sua gravidade — porém dentro de uma espécie de clareira, como se a atração se invertesse a partir de certo ponto. Hilda moveu as mãos em silêncio para chamar a atenção de Hahasiah e, assim que sua amiga desgrudou os olhos da criatura, viu o dedo robótico apontar na direção do amuleto pendurado em seu pescoço. A vampira cinza assentiu. Mirou Amir de soslaio, como se suspeitasse de algo, segurou o objeto em mãos e…

Bialqiwaa alati wahabaha allah lika — Amir gritou com as mãos erguidas e os três quase vomitaram as almas —, anhn 'amam rukbat hadha altadnisi! — As palavras foram proferidas como uma ordem tão imperiosa que o djinn virou-se para trás, revelando chamas amarelas em seu rosto que formavam dois olhos e uma boca. Tremulavam constantemente, embora não perdessem sua forma básica.

Ficou louco, seu filho da puta?! — Hilda exclamou mirando seu blaster na criatura junto com o fuzil de Panz. — O que ele falou, Hasiah?!

— Esse merda disse o feitiço que ativa o amuleto!

O djinn mirou os quatro com um sorriso rasgado, mas seus olhos recaíram em Amir.

Ma allaenat kan dhalik? — perguntou a criatura em uma irônica interrogação facial.

— Traduz aí, Hasiah! — Hilda pediu virando a cabeça meio de lado na direção da amiga, mas sem remover os olhos daquela coisa. Ninguém piscava.

— Ahn… ela perguntou “que merda foi essa”.

— A que “merda” ela está se referindo? O feitiço de ativação? 

— Aparentemente sim.

Hal kunt tuhawil ala ealaya il gha, iinsan alghabi? — A djinn se aproximou a passos lentos de Amir, os objetos abrindo passagem, arranhando o piso liso da cozinha como se uma força os empurrasse.

— E-ela disse “você por acaso estava tentando me controlar, humano idiota?” — Hahasiah traduziu e se afastou junto com Hilda e Panz ao ver criatura parar diante de Amir. O homem tremia da cabeça aos pés e suava em profusão. O rosto flamejante, a apenas dois palmos de distância, fitou-o da cabeça aos pés com uma expressão sacana, as mãos na cintura.

— Hasiah, tenta você! — Hilda deu tapinhas no ombro da amiga. — Tenta falar aí o feitiço!

— T-tá… ahn… — Hahasiah segurou o amuleto em mãos e buscou as palavras da memória. — “E-em nome do Deus Todo-Poderoso, eu exijo que esta criatura vil dobre os joelhos perante a mim!” — O tom foi imponente, mas a djinn meramente fungou uma risada e virou a cabeça na direção de Hahasiah.

“Vocês não perceberam que essa merda não funciona?” — perguntou ela em hallan.

Tsc… — Soltou Hahasiah ao ter seu medo confirmado. — “V-você é mesmo um djinn?”

“Não. Eu tenho os poderes de um, mas na verdade eu sou uma maga espectral igual a você.”

Ao ouvir aquilo, Hahasiah piscou perplexa. Essa coisa era uma pessoa de carne e osso?! A vampira mirou-a com os olhos apertado e então tudo fez sentido. Silhueta feminina, chifres, cauda... Mirou-lhe os pés e notou a forma de cascos. Ergueu o rosto, chocada. Sim, essa criatura era uma demônia de carne e osso cujo corpo havia se transmutado em chamas espectrais! 

Hilda e Panz miravam a djinn e amiga boquiaberta alternadamente, aguardando uma tradução.

“Co-como… como é possível…?” — Hahasiah não podia acreditar.

A djinn riu com arrogância.

“Basta fluir a mana livremente pelos fluxos e pontos de chakra.”

Hahasiah franziu o rosto em ceticismo.

“Como assim?! A pessoa vai morrer se fizer isso! Vai se desintegrar a nível atômico!”

“Não se você for fodona como eu.” — E abriu um sorrisão cruel e arrogante. Diante do silêncio incrédulo da vampira, voltou sua atenção a Amir, que se urinou nas calças. — “Bom… quanto a você…”

— O que… o que vocês conversaram? — perguntou Hilda.

— Ahn… a gente… a gente… — Hahasiah tentou responder, mas sua mente estava tomada por um único esforço: arrancar sentido das palavras e da figura à sua frente. Deixar a mana espectral fluir desse jeito era uma ideia tão absurda quanto enfiar o dedo na tomada e esperar virar um elemental elétrico! E ainda assim, lá estava a demônia, existindo absurdamente como um elemental espectral. Hahasiah estava tão confusa que só saiu de seu transe quando ouviu:

“É isso o que acontece com quem pensa que pode mandar em mim!” — Com um esgar de fúria, a djinn agarrou o pescoço de Amir, e imediatamente o homem explodiu em chamas negras. Hilda, Hahasiah e Panz grudaram as costas na parede e quem pôde arregalou os olhos. 

Ao contrário das chamas comuns, não havia qualquer fumaça ou carbonização, mas sim a separação dos átomos e a transmutação deles em mana pura. O sujeito urrou enquanto sua pele, músculos, órgãos e ossos se desfizeram camada por camada em fumaça negra até terminarem como o papel queimado por Hahasiah no bar. Não sobraram nem mesmo as cinzas para provar que há segundos atrás havia alguém ali. 

Quando a djinn virou a cabeça na direção dos três, Hilda e Panz ergueram seus blasters e atiraram desesperadamente enquanto Hahasiah invocava às pressas o redemoinho na parede atrás deles. A djinn se encolheu ao ser atingida, mas não pareceu sofrer qualquer dano. Os raios meramente atravessaram seu corpo, indo derreter a parede do outro lado. Hilda e Panz não pararam de atirar, nem mesmo quando Hahasiah abriu os braços e os empurrou para trás, para dentro do portal.

10

A tensão no galpão era tão palpável que dava para o guindaste erguê-la e levá-la embora. Mas ninguém fez isso. Ao contrário, ficaram os 25 tripulantes e os três piratas em silêncio, alguns de pé, outros sentados, uns poucos andando, mas todos à espera do retorno do grupinho (ou do momento de fugir ao berros da djinn). Após o que pareceram ser horas, um redemoinho surgiu em pleno ar e três figuras caíram de costas, uma sobre a outra. Teria sido engraçado, não fossem as expressões de puro pânico de Hahasiah e Hilda quando se puseram de pé.

Deu ruim! — Gritou Hilda. Quem estava sentado se levantou e quem estava andando parou. — Gart, Fen, Nova, faz o cão pastor e guia esse rebanho aí para dentro dos containers agora! 

— Ei! — O capitão ergueu a voz e deu um passo à frente. — Você quer nos prender naqueles caixões?! — Apontou para os containers, ele e a tripulação claramente desgostosos da ideia.

— Cara, aquela coisa evaporou o Amir até não sobrar nem um fio de bigode! — Os homens perderam a cor. — Se vocês quiserem ficar aí fora, fiquem, a vida é de vocês, mas eu me esconderia. — Hilda voltou-se para a amiga: — Hasiah, pelo amor de deus, me diga que tem uma forma de matar ou, no mínimo, debilitar aquela coisa!

Enquanto os tripulantes decidiam o que fazer, Hahasiah passou uma mão nervosa pelo rosto e disse:

— Então… eu descobri que ela não é exatamente uma djinn. Ela é uma maga espectral como eu, só que demônia, e… e eu não sei como, mas ela é capaz de fluir a mana com tanta liberdade pelos fluxos que o corpo dela fica daquele jeito! — Panz, Gart, Fen e Nova se juntaram às duas, formando um círculo.

— Tá, então ela possui uma forma original de carne e osso? — perguntou Hilda indo direto ao ponto.

— Sim. Se ela parar de fluir a mana, ela volta ao normal. É igual a mim. Se eu interromper o fluxo, minha pele e olhos voltam às cores originais.

— Tá, então é o seguinte — Hilda virou-se para Gart, Fen e Nova —, vamos religar o sistema anti espectral e tentar fazer ela voltar ao normal. Daí é só dar um tiro na cara e pronto.

— Não é tão simples, Hilda — disse Hahasiah. — O sistema não é invencível. Ela pode ser forçado. 

— Sim, mas isso com certeza vai enfraquecer ela. Ela sentiu dor quando eu e o Panz atiramos, então se estiver sem seus poderes plenos, talvez a gente consiga causar algum dano real.

— Eu tenho uma outra ideia.

— Sou toda ouvidos.

— Se aqui tiver uma caneta de mana, dessas de traçar círculos de magia para pequenos consertos, eu consigo desenhar um círculo capaz de furar a influência da djinn e criar um portal direto para a nossa nave. Eu vou precisar da energia de todo mundo, inclusive da tripulação, mas pode dar certo.

— Tá, gostei. Mas nós vamos seguir os dois planos. Vamos enfraquecer aquela coisa enquanto você faz o círculo. Se enfraquecer não der certo, a gente desliga o anti espectral e você faz o túnel.

— Acho ótimo. Mas como vamos fazer para ligar e desligar o sistema anti espectral? — A pergunta parecia simples, mas para entender o que Hahasiah queria saber, é necessária uma curta explicação sobre esse sistema. A função do anti espectral é impedir que coisas ou pessoas se teletransportem acidentalmente ou sem autorização para dentro de certos locais. Como consequência, enquanto ativo, ele não permite à nave em questão dar o salto. Seria o equivalente a tentar sair de casa sem abrir a porta. Por isso ambos os sistemas precisam agir automaticamente e em oposição um ao outro: ao se acionar o teletransporte, o anti espectral é desligado, e quando a nave chega ao seu destino, ele se auto religa. Ou seja, controlá-lo diretamente não está previsto no seu uso. Seria preciso alguém hackeá-lo, fisica ou digitalmente, para se ter controle sobre ele.

— Um deles vai ter que ficar do lado de fora — Hilda mirou o quatro androides. — Alguém vai ter que ir até o painel externo e religar os fios que vocês cortaram. Depois a gente volta para buscar.

— Eu posso ir — Nova ergueu a mão.

— Beleza — Hilda assentiu. — Então Nova fica de prontidão enquanto a gente catar essa caneta, voltar aqui e escrever o círculo. — Apontou para si e o restante do seu pessoal. — Todo mundo entendeu? — os cinco assentiram. — Ótimo! Então bora tocar esse bonde!

11

Hahasiah teletransportou Nova de volta ao galpão por onde entraram e, nos poucos segundos em que esteve fora, Hilda, Panz e Nova perguntaram aos tripulantes se alguém possuía uma caneta de mana. 

— E-eu tenho — disse o imediato, o jovem demônio azul. Como todos da raça, era careca, chifrudo, com pés e orelhas caprinos e uma cauda em seta. — M-mas está no alojamento. 

— Tá ok — disse Hilda. — Vamos eu, você e… — Calou-se quando um vendaval soprou todos no galpão e uma fumaça negra tomou forma em pleno ar. — O arregalar de olhos foi audível.

“Achei vocês, seus malditos!” — rosnou a djinn.

Garoto! — Hilda chamou sacando seu blaster. — Corre e trás a caneta! Rápido! 

O rapaz hesitou, porém vendo os piratas erguendo fuzis e pistolas, saiu correndo na direção do corredor mais próximo. Vendo aquilo, a djinn franziu seu rosto flamejante e mergulhou feito um jato d’água na direção das costas do rapaz.

FOGO! — Hilda gritou e todos dispararam. Gart, Fen, Nova, Panz, Hahasiah e a capitã, todos miraram seus feixes tracejantes na criatura, que gemeu de dor e desviou a trajetória para escapar dos disparos. Subiu ao longo de uma das paredes, acelerou e fez uma volta próxima ao teto, pronta para mergulhar em cheio em cima dos piratas. — Não parem de atirar! — Hilda e Hahasiah eram as mais habilidosas, mas os demais conseguiam acertar o suficiente para forçar outra fuga por parte da djinn. A massa flamejante se desviou novamente e voltou a subir (os tripulantes haviam todos se escondido dentro de um dos containers).

“Certo, vocês pediram por isso!” — A djinn rosnou e, ainda em movimento, esticou a mão em forma de garra e apertou o ar como se esmagasse algo invisível. O galpão estalou, gemeu, e as paredes de 10 polegadas pareceram se dobrar levemente para dentro. Os 1.849 containers formando a primeira camada da muralha se moveram, arranhando o piso. Estando os do meio mais próximos da djinn, foram os primeiros a serem puxados, caindo para frente como bloquinhos de metal de 3,5 toneladas atraídos por um ímã de fogo negro. Os tripulantes se apavoraram quando seu container foi arrastado e erguido do chão, eles, Hilda, Hahasiah e os demais, todos gritando quando caíram para cima, na direção do aglomerado de paralelepípedos de metal se unindo ao redor da criatura.

Hahasiah abriu suas asas e conseguiu segurar Hilda e Panz. Sem mais um par extra de mãos, não teve escolha se não ver Gart e Fen mergulharem em meio aos containers. Os dois acionaram seus jetpacks para frear a queda e fugir dos pesados objetos passando ao redor deles, mas os foguetes eram feitos mais para se moverem na microgravidade do que para vencer um campo gravitacional tão forte. Os dois então correram por paredes corrugadas, saltaram de um container para o outro, rolaram fugindo de impactos, tudo auxiliado pelos impulsos das mochilas. Por fim, conseguiram terminar na superfície do “planeta” que se formou, junto com Hahasiah. A vampira pousou no container onde estavam os tripulantes, soltou Hilda e Panz, bateu no teto e gritou:

— Vocês estão bem?! — Seu rosto estava tenso.

M-mais ou menos… Temos homens feridos aqui!

— Nova! — chamou Hahasiah pelo rádio.

Sim, major.

Não ligue o sistema anti espectral ainda! — Ela sabia estar furando a autoridade de sua capitã, mas se Nova unisse os fios cortados e o sistema enfraquecesse a djinn o suficiente, os containers cairiam de uma altura de quase 50 metros, matando todos os humanos, elfos e anões ali dentro. Hilda, sabendo disso, deixou a Major assumir a situação.

Entendido!

Hilda estava buscando a djinn com os olhos, blaster em mãos, quando, sem aviso, a criatura emergiu do núcleo do “Planeta Quina”. Subiu e deu um rasante furioso na direção de Hilda. A androide arregalou os olhos e não teve tempo para nada exceto dar meia-volta e correr o mais veloz que pôde — o que não era pouco considerando seu corpo cibernético. Hahasiah, vendo o rastro de fogo passar por ela em perseguição à amiga, invocou seus glóbulos de fumaça e os disparou, mas os arpões apenas passavam reto pela criatura, sem feri-la. Sendo eles feitos de mana espectral em estado sólido, era o mesmo que atacar um elemental de água jogando arpões de gelo.

Enquanto isso, Hilda corria à toda, seus pés voando de superfície em superfície, mal tocando o metal. Esquiava pelas bordas dos containers, saltava, usava superfícies verticais para mudanças bruscas de direção, voltava a correr… A djinn traçava o caminho percorrido com um rastro negro, seu rosto flamejante e furioso aproximando-se a cada segundo. Quando estava para alcançar Hilda, esta mirou sua trajetória em um espaço aberto entre uns quatro containers e ali saltou. Porém saltou girando feito um pião. Segurou a bainha com uma das mãos, sacou a espada com a outra e, no milésimo de segundo em que ela e a djinn se encararam, emendou o saque com um golpe horizontal mirando seu rosto. Um borrão vermelho feito uma barra de neon traçou o ar e, pela primeira vez, a criatura berrou de dor. Um berro que ecoou dentro do espaço confinado como música quando Hilda ali mergulhou.

A androide caiu de pé em uma camada abaixo do “planeta”, como se entrasse em uma caverna. Foi engolida pelas trevas, mas seus olhos capazes de enxergar no escuro não falharam. Esgueirou-se por entre os containers, jogando-se em fendas e passagens, sempre fugindo da djinn, até que estancou diante de um beco sem saída.

Merda! — Hilda se viu prensada entre dois containers cuja distância entre eles afunilava até se encostarem. O teto do espaço era o fundo de uns três containers, mas o piso era uma série de quinas, como o topo de prismas em transversal, tornando o caminhar praticamente impossível. A androide deu meia-volta no momento em que a djinn apareceu. A criatura parou no início do beco, na seção mais ampla, e as duas se encararam por tempo suficiente para Hilda perceber o corte amarelo entre os olhos e a boca, bem onde estaria seu nariz. A androide gostou do que viu.

A criatura rosnou alguma coisa em hallan e avançou, mas o blaster disparou em cheio em seu rosto, forçando-a a se encolher e recuar. Hilda sacou sua espada de calor e o brilho vermelho pintou de rubro o espaço confinado. A criatura mirou a espada e um sorriso cruel amarelo rasgou a cor dominante. Esticou a mão à frente e começou a apertar o ar como se esmagasse algo invisível.

Hilda sentiu um frio na espinha quando as paredes do beco gemeram e se aproximaram, o som de metal arranhando e gemendo ecoando agourento. Estavam prestes esmagá-la quando a androide arriscou. Sem poder correr ao longo do beco graças ao piso extremamente irregular, saltou na direção da djinn, a espada pronta para um golpe. Porém à medida que se aproximava, mais desacelerava, como se a criatura estivesse no topo de um local muito alto. A atração às suas costas não apenas puxou as paredes para perto uma da outra, como puxou a androide também. Hilda voou de costas até parar subitamente, prensada entre os dois containers. Tentou empurrá-los, mas era impossível. Seria esmagada como lixo compactado. 

12

Hahasiah viu a amiga sumir no horizonte de containers e, querendo ajudá-la e ainda salvar os homens sob seus pés, teve uma ideia. Mirou Panz, Gart e Fen e ordenou:

Entrem aqui! — Os androides não hesitaram. Jogaram-se no beco formado entre a porta do container e a parede de outro imediatamente à frente e alcançaram os 25 homens ao fundo. — Pessoal, quem tiver poder de voo, para fora! Rápido! — Ela gritou pela porta aberta e imediatamente três figuras saíram de lá: um demônio em sua forma original de magma e asas de fogo e dois vampiros. Era pouco. O demônio jamais conseguiria sustentar tanto peso sozinho e vampiros não voam, mas sim levitavam, não sendo a força dessa magia suficiente para sustentar um caixão de aço desse tamanho. Hahasiah não teve escolha senão ficar e ajudar. Abriu as asas e gritou:

— Galera, segurem as bordas com força! Esse troço vai cair! Nova! — ela chamou no rádio.

Na escuta, Major!

LIGA!

É pra já!

Não deu um segundo, Hahasiah sentiu. O sistema voltou feito um pico de luz, afetando sensivelmente seu fluxo de mana. A maga ganhou a cor de ovo cozido, olhos azuis luminescentes e lábios negros. Uma perfeita vampiranja, ou seja, uma anja transformada em vampira. Com o poder de voo de um e a levitação do outro, sua capacidade de erguer peso era a maior dos quatro. 

…mas ainda insuficiente para erguer aquele peso todo sozinha. Ela, os dois vampiros e o demônio quase tiveram os braços deslocados quando o planeta se desfez e mergulhou em queda-livre na direção do piso do galpão. O quatro gemeram de esforço, suas veias saltando em seus pescoços e os rostos se avermelhando. Calafrios subiram por suas colunas ao ouvirem os gritos dos tripulantes e o estardalhaço de 1.848 containers caindo do equivalente a 16 andares. Os paralelepípedos quicaram, estouraram, se desfragmentaram. A carga se espalhou. Sacos de farinha, actions figures, fones de ouvido, um carro, mesas, computadores… tudo se misturou à pilha de metal retorcido.

Embora os quatro tentassem frear a queda do container com todas as forças, estavam descendo rápido demais. Chocariam-se contra o piso com força suficiente para ferir gravemente os homens, quem sabe até matar alguns. O poder de levitação e o voo não foram projetados para erguer uma carga desse porte. Os quatro suavam quente e frio, o desespero tomando conta deles, quando o imediato voltou com a caneta. 

Foi o tempo de frear ao ver a pilha de containers no chão e olhar para cima. Apesar dos olhos arregalados, o rapaz não hesitou. Transmutou o corpo em sua forma original — um boneco articulado de metal negro — abriu asas de fogo e subiu veloz até alcançar a base do container. Encostou o topo das costas e fez força para cima. Deu certo. Os quatro notaram a súbita redução de peso e, mesmo sem entender como aquilo aconteceu, dobraram o esforço.

***

A djinn sorria cruelmente quando Hilda ouviu no rádio a voz de Hahasiah gritar “LIGA!”. O sorriso trocou de lábios quando o corpo de chamas tornou-se de carne e osso. A djinn, agora uma demônia cinza-chumbo de olhos flamejantes, mirou confusa a si mesma e então ergueu o rosto para Hilda. No instante seguinte, as duas despencaram em queda livre junto com os containers.

Era como estar em gravidade zero. As duas flutuavam cercadas pelos paralelepípedos de metal, cada um pesando o suficiente para impedir que a demônia conseguisse sair dali a tempo apenas abrindo passagem. Produziu então um redemoinho de fumaça às suas costas, abriu asas de fogo e voou às pressas para dentro dele. Hilda, com os pés e as mãos contra as paredes, lançou-se em perseguição, passando pela nuvem de fumaça um segundo antes de ela se dissipar.

A outra ponta do túnel se abriu do topo da parede do galpão, ejetando a demônia primeiro e a androide em seguida. Porém enquanto uma abriu asas de fogo, a outra agarrou sua canela e a puxou para baixo com seu peso em um curto mergulho. A djinn arregalou os olhos e baixou o rosto.

Surpresa! — Hilda mirou seu blaster e…

PEW!

…a atravessou em cheio na testa. A criatura morreu na hora e despencou mole, ela e Hilda mergulhando cada vez mais rápido através de mais de 100 metros. Com a aceleração constante, as duas se esborrachariam a 160 km/h em um impacto equivalente a 4,4 toneladas. O corpo de Hilda fora projetado para suportar forças intensas, mas isso ia além de suas capacidades. Ciente disso, a androide não hesitou. Usou os 4,5 segundos de queda para puxar o cadáver para baixo dos pés, como se surfasse.

Foi o tempo exato. Mal Hilda plantou os pés na carne cinza, atingiu o chão. O cadáver se esmigalhou em uma explosão de carne, absorvendo boa parte do impacto, e Hilda rolou para frente, distribuindo e desviando ainda mais a energia restante. Teria sido olímpico não fosse pela intensidade das forças envolvidas. O rolamento de Hilda não saiu perfeito e ela terminou capotando de lado, embolada em cabelo, até parar de borco. Sentiu seu tornozelo e o encarou. O pé pendia da canela rachada, soltando faíscas, ambos os coturnos completamente destruídos ao ponto de expôr seus pés. Androides sentem dor graças a película de mana que percorre seus corpos e transfere a força de um impacto para o sistema operacional. Porém a sensação não é debilitante como em criaturas de carne e osso. Ao invés de uma dor excruciante, Hilda simplesmente sabia que estava ferida. Ferida, porém viva.

Sua atenção foi atraída pelo imediato correndo galpão adentro, voando e ajudando a segurar o container com os tripulantes. Hilda assistiu ao pouso do chão. O “BAM” alto do metal ecoou alto quando o rapaz saiu de baixo, deixando o container chocar-se contra o piso. Hilda sorriu ao ver sua amiga bem — a pele já voltando ao cinza-chumbo —, e os homens saindo de lá de dentro. A androide terminou de arrancar fora o pé e se levantou, caminhando como se usasse uma perna-de-pau.

— E aí, Hasiah! — Ela acenou feliz. — Panz, Gart… tá todo mundo bem?

— Sim! — Todos assentiram; piratas, vampiranja e tripulantes. Hilda se aproximou mancando, porém estancou quando os sorrisos mirando-a derreteram. Hilda sentiu um frio em sua espinha e virou-se para trás a tempo de ver emergir de dentro de um redemoinho de fumaça outra demônia. Por um segundo, ninguém acreditou no que via. E os queixos caíram ainda mais quando perceberam que não era outra, mas a mesma! Os olhares recaíram nos restos espalhados e, em seguida, na criatura furiosa cujo rosto não exibia mais o corte sobre o nariz. Em sua mão via-se o que parecia ser a silhueta de uma cimitarra, tão negra que não possuía qualquer detalhe.

“Tá, agora virou pessoal!” — disse ela avançando a passos largos, os cascos ecoando alto.

— Hasiah… desde quando djinns podem fazer isso?! — Hilda apontou seu blaster e puxou o gatilho, mas os últimos dois disparos restantes foram defletidos pela espada negra. Hilda apertou o gatilho novamente, mas sem efeito. Estava sem carga.

— Isso é novo para mim também… — Hahasiah, de olhos arregalados, puxou seu blaster e, junto com Panz, Gart e Fen, descarregou sua carga na criatura, que defletiu a maioria dos disparos. A maioria. A demônia foi alvejada no peito e cabeça e caiu morta. 

…apenas para surgir uma terceira cópia. O puxar de ar foi audível. Todos chegaram a recuar um passo, em completo choque. Hilda foi a primeira a reagir. Trincou os dentes, sacou sua espada e ordenou por cima do ombro:

Hasiah, faz o círculo! — mirou a demônia cinza e finalizou: — Eu cuido dela — e avançou. 

Mancando, mas avançou. 

13

Hahasiah pediu às pressas a caneta ao imediato, puxou a tampa e checou a ponta. Ao invés de um bico esferográfico ou um feltro embebido em tinta, o que se via ali era um cristal grosso como a ponta de um marcador. Era amarelo e brilhoso, soltando fagulhas luminosas ao menor movimento. Essa era a quintessência da industrialização da magia. O contraste da marca impressa no corpo da caneta (MagiPen) com o cristal encantado chegava a ser cômico. Mas Hahasiah não riu ou sequer sorriu. Exclamou “perfeito!” imprimiu sua mana no objeto e começou a, literalmente, desenhar no ar. A caneta ia traçando linhas amarelas que se mantinham fixas no espaço como se a atmosfera fosse sólida. Em segundos o círculo começou a tomar forma. 

Enquanto isso, Hilda se aproximou da djinn a passos largos e mancos, sua espada de lâmina vermelha e luminosa brilhando quente em sua mão. A criatura sorriu, abriu as asas e avançou em um rasante, cimitarra em punho. Hilda arregalou os olhos e conseguiu aparar o golpe, mas foi arrastada para trás sob as faíscas de seu pé descalço e da ponta de sua canela raspando no piso. Estavam com os rostos próximos, as lâminas uma contra a outra, quando Hilda pivotou sua espada usando a cimitarra como base, como uma gangorra, e mirou um corte no pescoço da djinn. 

Mal o vermelho luminoso tocou a pele cinza e chiou, a demônia urrou de dor. Empurrou Hilda para longe bruscamente e se afastou. Hilda cambaleou, tentou recuperar o equilíbrio, mas a falta de um pé quase a derrubou. Vendo isso, a demônia avançou outra vez. Desceu vários golpes, que Hilda não teve qualquer dificuldade de aparar. Pelo contrário. Nem sequer pareceu se esforçar. A djinn aparentemente era boa apenas naquilo a que se propunha: magia espectral. Não era uma péssima espadachim, mas Hilda era claramente superior. Tão superior que bastou uma esquiva para o lado e um golpe seco para decepar o braço da oponente. A cimitarra se desfez em fumaça e a mão quicou mole em meio a sangue amarelo.

A demônia urrou de dor outra vez, xingou em hallan e apontou na direção de Hilda com a mão restante, proferindo mais algumas palavras em tom de ameaça. Mas a androide não se abalou. Quer dizer… até que os glóbulos de fumaça surgiram. Ao vê-los levitando ao redor da demônia, Hilda trincou os dentes e chegou a recuar alguns passos. Porém ao invés de correr, fechou o rosto em uma expressão decidida e correu na direção da djinn. Os disparos vieram logo em seguida. Hilda defletiu vários, mas um atravessou sua barriga e outro a coxa da perna ferida. Sendo uma androide, não foi nem de longe fatal ou debilitante. A garota se jogou para frente em um rolamento e ao se pôr de joelhos, ao invés de cortar sua oponente ao meio, cortou-lhe fora as pernas. Sangue amarelo flamejante espirrou no chão quando cada parte tombou para um lado. 

A demônia atingiu o piso de costas, imersa em dor, seu rosto transtornado. Hilda se conteve para não cravar a espada naquela cabeça e matá-la. Era preferível mantê-la viva, mas debilitada, do que invocar outra cópia intacta. Porém, deixá-la viva também não era o melhor dos mundos.

Cuidado, capitã! — Panz apontou para algo atrás de Hilda, que, ao se virar, viu os glóbulos de fumaça mirando-a em cheio.

“M-morra, sua pirralha de metal!” — a demônia sorriu por baixo do suor frio.

— Mer…! — Hilda foi calada por uma chuva de arpões. Foi perfurada no peito, barriga, pernas e braços, os ferrões atravessando-a com velocidade suficiente para se fincarem no piso de aço atrás dela. Agora, sim, seu corpo foi debilitado. Hilda tombou no chão, mole como depois da granada na boate. Como seu rosto ainda funcionava, o esgar de raiva e medo o tomou por completo. 

CAPITÃ! — Panz, Gart e Fen berraram e fizeram menção de se aproximar, mas a demônia ergueu-se no ar com as asas, os glóbulos ao redor dela. Hahasiah virou-se para trás e arregalou os olhos.

HILDA! NÃO! — Abandonou o círculo inacabado e chegou a dar um passo, mas ao ver a expressão da criatura, estancou. As duas se encararam e, na troca de olhares, Hahasiah soube que seria a próxima. Foi o tempo de abrir as asas e se erguer em voo através do gigantesco galpão, os arpões a perseguiram nos calcanhares, passando exatamente onde estava a um milésimo de segundo atrás. Parecia uma metralhadora caçando uma andorinha. Todos acompanharam a perseguição com o coração na boca. 

Hasiah… — Hilda sussurrou com o coração apertado.

Apesar de toda a comoção, não havia ninguém mais tenso que a própria vampiranja. Não apenas por causa da perseguição, mas por saber que agora cabia a ela — e somente ela —, salvar a todos. Sua mente trabalhava furiosamente em uma solução. Como se mata uma criatura que não morre? Como poderia sequer debilitá-la o suficiente para fugirem?! Estava revirando ideias velozmente quando uma a atingiu em cheio no nariz. Uma ideia bem ruim. Hahasiah não precisava respirar, mas ela arfou pesado diante da única solução viável. Tentou pensar em outra, mas dada sua situação e recursos, não houve escolha.

— N-Nova! — Chamou no rádio, a voz tremendo, os arpões quase a atingindo. 

Fala, Major!

Hahasiah criou coragem e então berrou:

DESLIGA!

Ok!

No mesmo instante, a figura demoníaca recuperou sua forma flamejante e Hahasiah sentiu a mana espectral fluir por ela com intensidade. Por um instante todos ficaram confusos, a djinn inclusa. A criatura chegou a parar de atirar e checou a si mesma antes de olhar para cima, na direção da anja mergulhando do teto em sua direção. O que diabos ela pretendia?! Piorou quando todos notaram que estava se despindo! Hilda arregalou os olhos. Não foi a única.

Hahasiah tinha o rosto contraído de esforço, os dentes arreganhados, enquanto lançava peça por peça de roupa longe até ficar completamente nua. Quando se livrou da calcinha, a vampiranja pareceu se concentrar como quem cria coragem para pular em um lago congelado. Respirou duas vezes rápido e soltou um grito de esforço. No mesmo instante, seu corpo fumegou e, em uma explosão de chamas, tornou-se outra djinn. Uma de longos cabelos de fogo, seios grandes e ombros mais largos que os quadris.

Foi uma visão de cair o queixo. De todos ali. Desde a djinn até o tripulante sem nome mais genérico. Porém, impressionante que tenha sido, o pouso fez a plateia perder o fôlego. Hahasiah se esborrachou no piso feito um balde e pareceu ter dificuldade em retomar sua forma e se pôr de pé.

A djinn sorriu arrogante.

“É difícil, eu sei. Mas estou impressionada. — Soltou um risinho e disse em um tom cheio de respeito: — Eu e você somos mais parecidas do que eu imaginava.”

Hahasiah não respondeu. Embora o poder que fluía por ela fosse inebriante, o esforço em sustentá-lo era como um castelo de cartas. Bastava um descuido para tudo desmoronar e ela desaparecer como uma vela soprada. Ela precisava agir rápido. Mirou Hilda e, assim como a djinn, lançou seu corpo na direção dela feito um jato d’água. Retomou sua forma sobre a mão segurando a espada de calor, abaixou-se e a pegou para si.

Eu… já devolvo. — Sua voz saiu entre dentes, com quem sustenta um peso enorme nos braços.

Hilda levou um segundo para encontrar palavras. A figura flamejante parecia ter sugado todas elas.

— O-o que você vai fazer? — perguntou, mas Hahasiah não respondeu. Virou-se para a djinn e ativou a espada, cuja magia cobriu a lâmina preta e fosca com a camada de vermelho.

“O que você pretende fazer?” — A criatura riu. — “Me matar de novo?”

“Sim.” — E avançou. A djinn invocou sua cimitarra de sombras, mas foi inútil. Mana espectral não afeta mana espectral. Hahasiah sequer sentiu a cimitarra passar por ela.

O que não pôde ser dito da djinn.

A espada de calor passou horizontalmente em um golpe desengonçado, sem qualquer técnica, porém em cheio no pescoço. Corpo e cabeça se desfizeram em labaredas e, no instante seguinte, Hahaisah fechou os olhos e se concentrou. Seus cabelos de fogo levitaram e pequenas nuvens de fumaça se formaram e se dissiparam ao seu redor nos poucos segundos que levaram para a criatura voltar.

“Não sei qual é o seu plano, mas não vai funcio…” — Hahasiah abriu seus olhos flamejantes de supetão e o redemoinho da djinn, que havia acabado de se dissipar, foi substituído pelo da vampiranja. 

O vendaval foi breve. Apenas o suficiente para empurrar a criatura na direção do vácuo espacial como se sugada por um aspirador de pó. O redemoinho se desfez e Hahasiah voltou à sua forma de carne e osso — nua em pelo —, tombando em seguida de exaustão. Caiu de joelhos e então de borco. No mesmo instante, Hilda, Panz, Gart e Fen gritaram por ela e todos (os que puderam) correram em auxílio.

— Eu estou bem, eu estou bem! — A vampiranja se levantou com esforço e esticou a mão para que os amigos não se aproximassem. Não foi preciso explicar o porquê. Os três estancaram. Todos no galpão a encaravam com assombro, os olhares recaindo “lá”. Hahasiah lhes deu as costas, catou suas roupas e, após se vestir minimamente, caminhou na direção de Hilda e a ergueu nos braços.

A androide a mirava com intensidade, mas Hahasiah não correspondeu ao olhar. A capitã teria jurado que a amiga estava furiosa se não soubesse que aquele rosto fechado era da mais pura vergonha. 

— Hein, Hasiah, olha para mim, quero te falar uma coisa. — A vampiranja hesitou, mas baixou o rosto. Hilda cravou firme suas íris vermelhas nas flamejantes e disse: — Tu não é menos mulher por causa dele não, beleza? E se alguém vier de palhaçada pra cima de tu, é só me falar o nome. Eu sei que você não queria que a gente descobrisse dessa forma, mas já que rolou, eu quero que você saiba que eu tô do teu lado. — Um sorriso ganhou os cantos da boca cinza.

— …Valeu — disse a vampiranja timidamente e emparelhou com Panz, Gart e Fen.

— Aê, Major — chamou Panz e a maga o encarou de soslaio. — Tamo junto, ok? Aqui é tudo aliado, tudo ponta firme — e apontou para si e os outros dois. — É só tu mandar a letra que teu segredo morre com a gente, beleza? — Os outros dois confirmaram e Hahasiah assentiu.

— Valeu, galera. Eu vou pedir mesmo que vocês não contem isso para ninguém, por favor.

— É, e ó! — Hilda mirou os três com severidade. — Se isso vazar, eu não vou nem perguntar quem foi o linguarudo. Eu vou é matar os três sem aviso prévio! Tá claro? — Embora estivesse toda mole, furada e desconjuntada, o brilho vermelho em seus olhos foi suficiente. Os androide fizeram o impossível e suaram frio.

— S-sim, capitã — responderam em uníssono.

Ótimo. Bora então. Panz, manda um rádio para o Nova e pede para ele esperar no galpão secundário que a Hasiah já abre um portal para ele.

— P-pode deixar, chefinha.

Hahasiah invocou o redemoinho e estava para atravessá-lo quando o capitão do cargueiro perguntou:

— Ei, ahn… — ele hesitou quando os piratas o encararam. — P-para onde você enviou aquela coisa?

— Para um minuto-luz daqui — a resposta fez os homens relaxarem visivelmente, alguns chegando a sorrir. Isso porque, em outras palavras, a maga havia jogado a djinn a quase 18 milhões de quilômetros de distância, o suficiente para esconder até mesmo Zarin ou Tchar em meio às estrelas. O capitão assentiu respeitosamente, assim como o imediato e os três homens que a ajudaram a pousar o container em segurança. 

Com um aceno respeitoso, Hahasiah deu um passo à frente e cruzou o redemoinho.

14

A porta-escotilha dos aposentos pessoais de Hahasiah se abriu de supetão:

Hasiah, ela respondeu! — Hilda entrou berrando no pequeno cômodo e parou diante da amiga deitada na cama. Hahasiah — de shorts e camiseta preta —, quase caiu da cama, ela e seu livro.

— Ela quem respondeu o quê, sua louca? — Hahasiah parecia perdida.

— A minha irmã Greta! Ela respondeu à mensagem que eu mandei! — Hilda estava elétrica.

Ao ouvir aquilo, os olhos incandescentes cresceram.

É?! — Sentou-se às pressas e bateu a mão no colchão ao seu lado. Hilda sentou-se prontamente. — E o que ela disse?

— Disse para fazer uma videochamada assim que eu pudesse.

— Então faz!

— T-tá! — Hilda estava visivelmente nervosa. Projetou em pleno ar a tela do seu celular (embutido em seu sistema operacional) e clicou no ícone de chamada de vídeo. A tela ficou preta e um “tuu-tuu-tuu…” ecoou por agourentos cinco segundos até ouvirem:

Alô? — Uma imagem surgiu. Era uma demônia jovem, vinte e poucos anos, vermelha, cabelos morenos cor de madeira e chifrinhos curtos na testa. Pelo tamanho do pescoço e trapézio, era possível deduzir seu percentual de massa magra. — Ah! Oi! Você quem me mandou a mensagem, né?

— I-isso! — Hilda não sabia se sorria ou se estranhava. Essa era sua irmã, mas… nada nela despertava qualquer memória ou sensação. Era como se fosse uma completa estranha. — S-sou eu! Hilda!

Ah… então… — o rosto da demônia murchou de leve e pareceu sombrear-se com más notícias. O brilho de esperança na androide (e até em Hahasiah) oscilou. — Eu… ahn… preciso te contar uma coisa… Lembra quando você estava no Hospital das Torres?, quando tu brincou de “Frango Frito da Hilda” e tudo mais?

Hilda e Hahasiah franziram os cenhos.

— N-não… — Hilda quis sorrir, queria dizer “sim, eu lembro!”, chegou a tentar erguer os lábios, mas ela não fazia ideia que hospital era esse e, muito menos, o que diabos era “Frango Frito da Hilda”. — Eu… eu não lembro de nada sobre mim exceto meu primeiro nome. Eu acordei em um galpão cheio de computadores, lá em Neonelly e… e tive que pedir para a Xari procurar por imagens do meu rosto na Rede para poder achar o meu perfil. Só que como eu não lembro da minha senha e nem do meu login, fui obrigada a criar outra conta. Eu queria saber… o que aconteceu. Porque eu e você sumimos uns dois meses antes de eu acordar? E cadê… cadê os nossos pais?

Então… — as palavras pareceram se acumular e pesar em sua boca. Chegou a desviar os olhos. — A gente… a gente sofreu um acidente de carro e… nossos pais morreram na hora. Você ficou em coma por dois meses até que duas amigas nossas conseguiram um corpo para você. Só que… 

— Só que o quê? — Hilda franziu o rosto em expectativa, seu tom inquisitivo. Hahasiah assistia a tudo compenetrada.

E-eu vou te passar para uma outra pessoa que vai te explicar melhor. Mas ó, não surta, ok?

— Ahn… como assim não surtar? — Hilda e Hahasiah miravam a tela com os cenhos contraídos em uma interrogação. — Por que eu iria surtar? — Mas Greta não respondeu. A tela ficou preta e a chamada foi transferida para outro celular. Quando a imagem voltou e as duas amigas viram o rosto emoldurado pela tela holográfica, quase ejetaram os olhos.

Oi! — sorriu timidamente uma outra Hilda, claramente tentando ser o mais simpática que a situação permitia. No silêncio boquiaberto das outras duas, continuou: — Então… ahn… Hilda… eu… quero dizer, nós fomos usadas por um maluco.

— Q-quê?! Como assim? Usadas como?! — As palavras pareceram se destravar subitamente, seu tom saindo irritado pela demora em uma resposta direta.

Então… não sei se você sabe, mas quando alguém entra em coma, o hospital copia a consciência dessa pessoa para um cristal de memória, que reproduz ela holograficamente para que possa interagir com os familiares e a equipe médica. Daí enquanto eu dormia, um hacker (100-Corpo, não sei se você conhece) — Hilda-pirata negou lentamente. — Bom, tanto faz o nome. O fato é que ele copiou o meu cristal de memória e fez duas cópias, você inclusa, para tentar unir uma consciência a uma IA. E você provavelmente foi um dos testes feitos. Eu ouvi o que você falou para a Greta, que você acordou num galpão cheio de computadores, então muito provavelmente lá era meio que o laboratório dele. Por alguma razão ele não concluiu o projeto com você, talvez por pressa (ele queria aproveitar o caos da crise econômica para roubar as consciências e testar), então, tipo… essa é a sua história… — Hilda-original pareceu condoída.

Hilda-pirata ficou calada por vários segundos ao ponto de Hahasiah pôr a mão em suas costas. 

— N-não, calma… — Ela parecia a ponto de chorar. — Quer dizer que… que eu sou só uma cópia de alguém…? Que… que eu não sou eu, mas uma versão de você?

Bom… — Hilda pareceu sem jeito. — A Greta acha que somos a mesma pessoa, mas eu acho que não. Eu acho que você é alguém individual.

Porra! Como assim “alguém individual”?! — Hilda-pirata ergueu a voz, lágrimas artificiais descendo de seu rosto. — Nem a minha aparência é minha! — Hahasiah a abraçou de lado e Hilda segurou seu braço. — Eu sou só… só… — ela tentou achar as palavras certas — …só uma cópia mal-feita e descartada!

Não! — Hilda-original tentou acalmá-la. — Você é você! Você pode até ter sido criada a partir de mim, mas você é e sempre será uma entidade própria, com seus interesses e motivações pessoais. Nós somos como irmãs gêmeas: iguais mas diferentes. E você não foi descartada. O hacker só não teve tempo de finalizar o trabalho. O que é bom! — emendou rapidamente. — Se ele tivesse feito com você o que ele fez com a outra cópia minha, você teria perdido sua individualidade e não seria quem é agora. Você é você e pode ser quem quiser justamente porque foi deixada para trás inacabada!

Hilda-pirata teria fungado, mas ela não respirava. Hahasiah acariciou sua nuca em um cafuné. A garota limpou as lágrimas e, parecendo mais calma, disse:

— Será que… será que a gente poderia… Eu queria me encontrar com vocês, se possível.

Hilda olhou para o lado e uma loira de olhos azuis e cabelos curtos com mechas pelas bochechas surgiu na tela. Hilda e Hahasiah arregalaram os olhos. Aquela era a famosa Freya! A ladra vampira que roubara um Classe-S! Um cruzador do exército! 

Menina, ocê quer se encontrar ‘ca gente, é? — Ela sorriu amigável e malandra ao mesmo tempo. Em sua voz saía em alto e bom tom um sotaque interiorano. Hilda-pirata assentiu, chocada, como se falasse com uma celebridade. Hahasiah, ao seu lado, parecia surpresa também. — Uaaai! Então bora marcá! Só docê ser uma Hilda, já é minha amiga! É só me dizer o dia, o local e a hora que a gente troca uma ideia! 

Hilda ficou calada, perplexa, até que, lentamente, seus lábios se abriram em um sorriso feliz.

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